Sabrina Noivas 95 - His Perfect Partner

Ela decidiu que nunca mais teria outra decepo amorosa. Jean-Luc e Raquel viveram 1 amor ardente, tempestuoso. Um amor de adolescentes. Mas ele a abandonou sem dar esperanas de volta. E ela nunca o perdoou por isso. Agora, Jean-Luc estava de volta, oferecendo ajuda a Raquel para salvar a manso de sua famlia, penhorada pelo banco. Seria preciso muito dinheiro para evitar a runa, mas Jean-Luc com certeza o tinha. Nos 6 anos de ausncia, o antigo estudante pobre se transformara em 1 homem milionrio. Aceitar a oferta dele significava retomar 1 relacionamento marcado pelas mgoas e incertezas do passado. Mas Raquel era 1 mulher independente e corajosa. Seu amor ainda estava vivo e ela aceitou a paixo ardente de Jean-Luc, decidida a no sofrer mais nenhuma desiluso!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1998. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
CAPITULO I

Jean-Luc Manoire olhou ansioso pela janela do carro. No estava certo de que agia correta-mente. A indeciso o fez sentir-se desconfortvel. Tarde demais, porm. J haviam chegado  granja.
Ele tocou no ombro de seu motorista, indicando para seguir mais devagar. Olhou para os altos portes de ferro que cercavam a manso e que guardavam velhas histrias. Inspirou o ar profundamente, mais cnscio do que nunca das conflitantes emoes que dele se apoderavam.
O carro moveu-se, deslizando sobre o cascalho. As rvores centenrias que margeavam a trilha estavam comeando a florir, apesar do musgo que parecia sufocar os galhos.
A casa aparentava estar vazia e malcuidada. Jean-Luc desejou que as informaes que obtivera fossem realmente confiveis. Viajara muito para encontr-la.
Seu telefone celular tocou, e ele o tirou de dentro da maleta executiva acomodada no banco. J esperava a chamada de seu secretrio particular, desde Paris, confirmando a concluso de um negcio importante e lucrativo.
Negcios. Jean-Luc vivia para eles. O resto, as complexas razes que o haviam levado at a granja, podiam ser consideradas irrelevantes. Ou seria melhor encar-las de uma vez por todas? Ele ainda duvidava de sua habilidade em lidar com problemas pessoais. Havia almejado aquele encontro por dias e dias, desde que a situao chegara o seu conhecimento.
Uma nota de falecimento nos jornais era tudo o que conseguira saber. E ela? Como estaria? As lembranas que ele banira de sua mente por tanto tempo voltaram com fora, a ponto de no deix-lo mais dormir, de tirar-lhe a concentrao e o gosto pelo trabalho.
Ela haveria de aceitar a proposta. Faria uma generosa oferta em dinheiro. Seus advogados no poupariam esforos para convenc-la.	.
Mas, e se no aceitasse?
Ela poderia ter mudado muito, e Jean-Luc estava preparado para uma eventual surpresa. Se continuasse a ser a mesma mulher, talvez no tivesse suportado tudo o que lhe acontecera.
O carro parou. No se tratava de uma questo de aparncia fsica. Raquel poderia ter sofrido uma mudana mais profunda, e nesse caso sua reao  chegada dele era uma incgnita. Ele preocupou-se em manter o autocontrole. Soubera dominar Raquel, mas isso tinha sido seis anos atrs.
Jean-Luc amaldioou a imagem que sua mente lhe imps: Raquel deitada a seu lado, os cabelos de ouro esparramados, os olhos cheios de confiana e amor. Dias depois, como se tivesse esquecido aqueles momentos to prazerosos, afastara-se dele e de seu afeto incondicional.
Era apenas uma visita de negcios. Ele no podia esquecer-se disso.
 Ah, aqui est voc!
Raquel girou o corpo na direo da voz da mulher que se aproximava com um sorriso.
- Como soube que eu tinha chegado?
Vi voc de uma das janelas l de cima.
Naomi abraou Raquel contra seu largo peito e soluou.
	Sua tia Clara gostava de juntar coisas inteis. H uma tonelada de quinquilharias para arrumar.
	Perdo, Naomi. No pretendia deix-la sozinha com tantos afazeres. Mas precisava de um tempo para respirar.
	No estou me queixando, querida. Afinal, o funeral de sua tia foi s h uma semana, e voc no descansou nem um minuto.  Naomi tomou-lhe o brao carinhosamente.  Vim avis-la de que tem uma visita.
	Mais um cobrador? No estou aguentando.
	Nem eu. Mas no se trata disso. Ele me deu seu carto  passou a Raquel o impresso , mas no consegui ler. As letras so pequenas e eu fico cega sem meus culos de leitura. Mas parece um homem importante. E rico. Veja o carro dele. Com motorista!
Kaquel franziu a testa ao ler o nome: JSJ Empreendimentos.
	 No Sei do que se trata  sussurrou.  Mas vamos receb-lo ainda hoje. Amanh terei uma reunio com o gerente do banco. Ele vai me mostrar as dvidas da propriedade, e preciso resolver o que fazer.
	 Tempos difceis, querida. No entendo como pudemos chegar a essa situao.
	No se culpe. Tia Clara era...  Raquel deu um sorriso conformado.  Era uma mulher muito forte. Nunca aceitou conselhos de ningum.
	Sim,  verdade.  A velha senhora calou-se por um momento, mas uma profunda tristeza estava estampada em seu rosto.  J lhe disse que Sean telefonou?
	Sim, Naomi, voc me disse. Est tudo terminado entre ns. Sei que gosta dele, Naomi, mas...
	Vocs foram feitos um para o outro.
	No quero desapont-la, Naomi, porque sei que Sean  seu parente. Sobrinho-neto, no? Tambm gosto dele, mas como um bom amigo.
	Voc precisa de algum  pondereu a mulher.  Algum como Sean.
Raquel preferiu no argumentar. Em certos aspectos, era to teimosa e auto-suficiente como tia Clara. Tinham crescido juntas.
As duas mulheres, to diferentes em aparncia e temperamento, andaram lado a lado at os fundos da casa, cada qual concentrada em seus prprios pensamentos.
	O visitante a espera no escritrio  anunciou Naomi ao chegarem perto da cozinha.  Quer que eu sirva algum refresco?
Raquel fez uma pausa, atenta a seu reflexo na porta de vidro. Ajeitou os cabelos com as mos. Estavam limpos e sedosos. Um pequeno retoque na maquilagem a deixaria mais segura. Mas no teve tanta certeza quanto s roupas que usava. No se incomode. Que tal minha aparncia?  perguntou a Naomi.
Deveria trocar de roupa para causar melhor impresso - disse a mulher com sua franqueza habitual.
	Ser que uma roupa mais bonita vai nos tirar deste pesadelo financeiro?  ela indagou.  Tomara que o visitante seja diretor da Caixa Econmica e tenha vindo avisar que ganhamos na loteria.
Mas se nunca compramos bilhete algum...  observou Naomi.
Raquel parou  entrada do escritrio da casa. Sentia-se cansada. Nada a havia preparado para o choque que a atingira nos ltimos dias. A repentina morte da tia causou-lhe grande sofrimento, at descobrir um ainda maior: as dificuldades financeiras da famlia. Os sentimentos de Raquel ficaram bloqueados pela determinao de salvar a propriedade, de proteger a manso. O imponente casaro, em meio a uma granja verdejante, estava em mos de sua famlia por muitas geraes. No admitia a ideia de perd-lo para o banco.
Snia, uma das mulheres do vilarejo que trabalhava na granja desde que Raquel era criana, aproximou-se com uma grande caixa de papelo nas mos, com pertences de tia Clara.
J est melhor l em cima  ela comentou.  Logo vai ficar tudo arrumado. No se preocupe.
Raquel retribuiu o sorriso amistoso de Snia e entrou no escritrio.
Desculpe-me por faz-lo esperar  disse sem ver as feies do visitante, sentado de costas para ela junto  escrivaninha.
Quando ele se voltou, o primeiro sinal de reconhecimento foi como uma punhalada no corao de Raquel. Ela arregalou os olhos azuis, chocada pela surpresa. Levou os braos ao peito em um involuntrio desejo de proteo. Balanou levemente a cabea, um gesto de incredulidade que pareceu estranho e embaraoso naquela situao.
Sim, era ele! Ela quase parou de respirar. Sua mente logo preparou-lhe a armadrlha de lembranas tristes. Mas a mgoa e a desiluso no lhe roubaram a lucidez. Ali estava Jean-Luc. No cmodo ensolarado, com mveis coloniais, bonitos sofs de chintz, uma estante de parede a parede, cheia de livros, estatuetas e vasos chineses, ele parecia to deslocado quanto sempre estivera.
Raquel fixou o olhar nos cabelos lisos e pretos, agora cortados curtos, na linha severa do maxilar e nos lbios estreitos, finamente cinzelados. Sentiu uma leve tontura e caminhou com passos inseguros at a cadeira mais prxima para apoiar-se.
Ol, Raquel.  A voz era suave e profunda, menos modulada
que de costume, mas ainda assim hipntica.  Como vai?
Aps hesitar por um instante, ele levantou-se e foi ao encontro dela, segurando suas mos em uma saudao formal. Como se cumpriment-la desse modo, ela pensou, fosse a coisa mais natural do mundo.
Ele no esperava encontr-la com a mesma aparncia. Havia acompanhado a distncia sua ascenso profissional e se convencera, no sabia por qu, de que Raquel deveria ter agora um ar mais sofisticado, mais internacional, o tipo da executiva como tantas mulheres com quem sara nos ltimos anos. Completo engano. Embora no se vissem havia seis anos, ela continuava jovem e bonita.
Raquel forou-se a desviar o olhar do rosto dele. Contemplou sua mo forte e, em um impulso, viu-se trocando um aperto de mo com Jean-Luc.
Estou bem  ela murmurou maquinalmente.  Bastante bem.
 Sei que este  um momento difcil.
	Sim.  Ela no conseguia pensar direito. Jean-Luc estava mais velho, mais atraente se era possvel, porm algo nele parecia diferente. Estava mais contido e elegante, polido e refinado, longe de ser o homem que ela havia conhecido e amado. Muito longe.
	Senti bastante a morte de sua tia  ele disse.
	Sentiu?  Passado o choque inicial, ela j pensava com mais clareza.  No vejo por qu. Voc nunca gostou dela.
	Isso no quer dizer que eu desejasse v-la morta.  A voz suave ainda mantinha uma leve frieza de ao em cada palavra pronunciada.
Raquel deu um fundo suspiro. Aquela tinha sido uma observao tola. Jean-Luc no era o tipo de homem que se podia tratar com informalidade. Deveria ter-se lembrado desse detalhe.
	No,  claro que no  respondeu finalmente, olhando para o carpete.
	Voc parece...  Jean-Luc pretendia dizer "estranha", mas Raquel estava determinada a poup-lo de qualquer mentira.
	Sei como pareo  falou com a voz trmula.  Pareo uma bruxa!  Sabia quanto havia se descuidado desde que chegara  manso.  Vamos esquecer as formalidades, props Raquel.  Gostaria de saber por que est aqui.
O tom firme o espantou, mas ele no demonstrou reao alguma no rosto anguloso. Talvez uma leve tenso no queixo, um pequeno estreitar dos olhos, nada mais.
	Quase nada mudou aqui  ele comentou, girando o olhar pelo aposento, at parar propositadamente no rosto dela. Exceto voc, talvez.
	Fiquei mais velha  ela respondeu com neutralidade.
Mas no mais sbia, pensou com desalento, consciente dos tormentos que trazia no corao.
	E mais pobre, pelo que pude deduzir.  O olhar de Jean-Luc era frio, controlado. Quase cruel em sua capacidade de desvendar o ntimo de Raquel.
Ele ponderou se conseguiria prosseguir essa conversa, como se a presena dela no o abalasse. Era um homem habituado a enfrentar desafios, mas aquele estava se revelando o maior de sua vida, com exceo do desafio de esquec-la.
Raquel encarou-o com firmeza, orgulhosa com sua capacidade de manter aquele dilogo.
- Sim, voc tem razo.
	Um grande choque, imagino  Jean-Luc continuou.  Sua tia sempre deu a impresso de ser uma mulher rica.
	Mas ela era rica  contestou Raquel sem demora.  Ela apenas fez alguns maus negcios, investiu mal seu dinheiro.
 A voz tornou-se vacilante.  Se veio apresentar suas condolncias, Jean-Luc, est atrasado. O funeral foi na semana passada e, como pode imaginar, ainda estou fazendo um levantamento das finanas da famlia.
Portanto, se me der licena...
	No se faa de desentendida, Raquel  ele respondeu rispidamente.  Esta no  uma visita social.
	No?
	Naomi lhe deu meu carto, eu presumo.
Ela quase havia se esquecido. Enfiou a mo no bolso de sua cala jeans e apanhou o carto de Jean-Luc, sem atinar com o objetivo dele.
	Aqui est.  Exibiu-o preso entre dois dedos.
Aps um momento de hesitao, dirigiu-se  mesinha das bebidas, onde uma rica coleo de garrafas e copos estava arrumada em uma bandeja de prata. Serviu-se apenas de gua mineral. Sua boca havia ficado to seca que j era difcil falar. Examinou o carto com pouco interesse.
	JSJ Empreendimentos. No significa nada para mim. Por acaso  uma das empresas para a qual trabalha?
	De certo modo, sim.  Jean-Luc caminhou at ela, que
permanecera ao lado da mesa de bebidas.  Com licena.  Serviu-se de um pouco de usque sem esperar aprovao.  Estou surpreso que voc no tenha ouvido falar da JSJ. Eles esto por toda parte.
Jean-Luc desfiou para ela uma srie de grandes projetos urbansticos que haviam merecido boa cobertura na imprensa, e Raquel acabou por admitir sua relativa falta de informao.
	Certo. J percebi. A JSJ  uma empresa sria, que est se expandido em nosso mundo globalizado.
Caminhou at a janela, pois ficar perto de Jean-Luc aps todos aqueles anos de ausncia era no mnimo exasperante. Reparou nos vidros impecavelmente limpos do carro estacionado l fora.
Era um automvel grande e luxuoso, perfeitamente compatvel com a nova imagem de Jean-Luc, que Raquel estava tendo dificuldade em aceitar: elegante, poderoso, uma presena marcante que jamais passaria despercebida de algum.
Ele havia prosperado, com certeza, e Raquel sentiu-se diminuda na comparao com seu prprio sucesso na indstria hoteleira, mesmo considerando que havia comeado como recepcionista em meio perodo, e subido a cada degrau com talento e dedicao para chegar a uma gerncia. Parecia claro que Jean-Luc estava em outro patamar.
Um motorista particular significava status e mostrava uma realizao pessoal muito alm do que ela podia imaginar para si mesma.
Raquel voltou-se para ele e aproximou-se alguns passos.
	Por favor, explique-me. Qual o interesse de uma firma como a JSJ em uma propriedade como esta. Seu chefe est maluco, por acaso?
	Comeo a pensar que sim  ele respondeu em um tom insinuante.  As iniciais JSJ no lembram nada a voc?
	No.  Raquel foi sincera. Deu de ombros e evitou o olhar dele.  Por que deveriam lembrar?
	Jean-Luc, Saul e Jerome. Trs scios. E s no somos mais porque meus pais s conseguiram ter um filho.
	JSJ?  Levou um momento para Raquel atinar com o significado do que ele dizia.  A empresa  sua?
Ela no pde esconder o assombro. Olhou para Jean-Luc com novos olhos. No era mais o homem que ela havia adorado e amado. Impossvel conciliar as diferenas entre agora e seis anos atrs. O descrdito secou-lhe a boca. Diante de si no estava o estudante meigo e amoroso, mas o magnata internacional.
	Em seis anos, muitas coisas podem mudar  observou ele.  O que voc esperava? Que o tempo parasse? Que eu ainda precisasse cuidar dos jardins dos milionrios para ganhar alguns trocados?
	No, claro que no!  exclamou ela em tom rspido.
Sentiu as pernas pouco firmes ao caminhar para a porta.  Incomoda-se em sair? Acho que no temos nada a conversar.
Ela receou que, a distncia, Jean-Luc notasse seus olhos lacrimejantes.
	To educada...  ele ironizou pesadamente.  Onde ficaram aquelas maneiras gentis das quais eu me lembro tanto?
	No quero falar com voc!  Raquel j estava exasperada com a presena dele.  No vejo motivo algum para voc ter vindo aqui.
	Esta propriedade est cheia de dvidas. Voc corre o risco de perder tudo.  verdade ou no ?
	Muito perspicaz de sua parte  ela retrucou.  Ento, minha situao financeira  de conhecimento geral?
	No  isso. Achei que era meu dever saber o que est acontecendo.
	Dever? O que quer dizer com isso?  Raquel perguntou friamente.  Devo ficar lisonjeada com seu interesse?
Lisonjeada? Ele s a fazia sofrer com a pretenso de ser prestativo. A contrariedade e o desgosto ficaram visveis no rosto dela, e Jean-Luc quase odiou-se por isso.
	No  o caso  ele argumentou.  Talvez voc imagine que eu a procurei por causa de nossa antiga ligao sentimental.  O sorriso cortante mostrou dentes muito brancos.  Garanto que no tive essa inteno.
Raquel abaixou a cabea, ps a mo na testa e coou as sobrancelhas. Tinha dificuldade em lidar com a situao. J era ruim estar perdendo a casa, mas pior ainda era ter Jean-Luc por perto, lembrando-a desse terrvel fato.
	Ento, o que voc quer, efetivamente?  Olhou para ele com evidente desprazer.
	Posso ajudar.  Ele lanou-lhe um olhar enigmtico.
	Ajudar? Ficou louco?  Raquel inspirou fundo, na tentativa de manter a voz firme.  Acredita honestamente que vou querer sua ajuda?
	Voc precisa de ajuda, e isso faz toda a diferena. Nesta casa voc s encontrou dvidas e cobranas, porque sua tia nunca ouvia conselhos, e amanh o banco vai executar a hipoteca. Correto?
	Tenho algum dinheiro meu  Raquel informou timidamente.  Talvez suficiente para adiar o pior.
	Suficiente para tirar a granja das impacientes e gananciosas mos do banco?  Jean-Luc meneou a cabea.  Pelos meus clculos, tudo o que voc possa ter economizado nestes anos no pagar nem um tero da dvida. Mas o principal  que o banco deseja sua bela propriedade, e no vai aceitar parcelamento algum. Est preparada para perder tudo o que tem, s por teimosia?
	Pense o que quiser! ' Raquel teve um assomo de raiva.
 Afinal, tambm fui teimosa quando deixei que um francs falante me levasse para sua cama.
Silncio. O escritrio pareceu imerso no vazio, enquanto se ouvia apenas o antigo relgio carrilho mover seus pesados ponteiros.
	Pelo que me lembro, a primeira vez que fizemos amor foi em cima da grama  ele disse serenamente.
	Como se atreve?  Ela continuava irada.  Vir a minha casa para dizer essas coisas? Quem voc pensa que ?
	Sei quem eu era.
Rachel arfou enquanto Jean-Luc estendeu a mo para impedir que ela abrisse a porta. Vendo-a a seu alcance, ele puxou-a para si, e subitamente o passado voltou. Exceto que dessa vez havia um elemento de fora, quase violncia, na expresso dela, ao lado da vitalidade sexual que parecia ser parte essencial de sua personalidade.
Sei que este lugar significa muito para voc. Ento, no seja tola e esquea nosso antigo relacionamento. Julgue apenas os fatos atuais.
	Deixe-me!  Raquel se debatia para livrar-se do pulso firme de Jean-Luc. Ningum precisava record-la do que eles tinham significado um para o outro. Cada nervo de seu corpo vibrava com a lembrana das carcias de Jean-Luc. Uma terrvel nsia de amar fez seus olhos brilharem.  Voc acha que pode voltar ao passado e dizer a mim o que sinto?
Eu no acho. Eu sei  ele contraps com desconcertante arrogncia. Era difcil, era amargo, mas tinha de ser assim, pensou com o olhar fixo no rosto dela.
Raquel o fitou demoradamente, e Jean-Luc pde perceber a angstia e o medo que dominavam o corao daquela bela mulher.
Muito bem.  Ele manteve o tom duro na voz.  Vim aqui com uma proposta de negcio. Se voc parar de agir como uma menina petulante, talvez possa salvar seus bens.
Jean-Luc examinou-lhe o rosto. Raquel estava lvida, sem saber o que dizer. Ele franziu a testa com sincera preocupao.
Pense bem, Raquel. Quer me ouvir?

CAPITULO II

Raquel queria sair dali para chorar de raiva e frustrao. Queria gritar para Jean-Luc que ele era um desalmado, que havia arruinado sua vida. Como ele ousava voltar ali e reabrir todas as velhas feridas? Como ousava falar-lhe naquele tom?
Mas ela nada fez. O instinto lhe segredou que Jean-Luc levaria a melhor em qualquer situao, como antes, como sempre. E, alm disso, demonstrar seus sentimentos s indicaria quanto ele ainda era importante para ela. No poderia haver nada pior.
	Certo.  Raquel tomou flego.  Diga o que quer.
	No aqui.  Ele soltou-lhe a mo e afastou-se dois passos, consultando o relgio.  No agora. Estou atrasado para outro compromisso.
	Ento, quando?  Ela controlava sua fria modulando a voz.  No resta muito tempo. Amanh cedo tenho uma reunio com os advogados de tia Clara e com o gerente do banco.
	Poderemos conversar  noite, durante o jantar. Vou combinar com meu contador e meu procurador para se encontrarem com seus advogados. Assim, adiantaremos alguns pontos da negociao. Meu motorista pode peg-la s oito horas?
	Eu no pretendo jantar com voc.
Os olhos negros de Jean-Luc percorreram a face enrubescida de Raquel.
	 um jantar de negcios, no tenho outro horrio livre.
	Mas que homem ocupado!  O sarcasmo foi a maneira que ela encontrou para agredir Jean-Luc, antes de voltar para junto da janela.
	Oito horas.  Jean-Luc ignorou a agresso, mantendo seu ar de superioridade, e saiu do aposento.  At mais.
Segundos depois, pela janela, Raquel o viu caminhando para o carro, com sua figura elegante e empertigada. O motorista abriu-lhe a porta com uma reverncia. No havia esnobismo na cena, Jean-Luc comportava-se com naturalidade. Ela ainda o observava quando o viu retirar uma pilha de papis de uma maleta de couro. J estava trabalhando antes mesmo de o automvel partir.
Parecia tudo to simples para ele, pensou Raquel. Nenhuma pausa para reflexo. Nenhuma saudade aps tanto tempo.
Jean-Luc tremia. Suas mos mal conseguiam segurar os relatrios que tentava consultar. O que ele esperava? Que Raquel ficasse contente em rev-lo? Que ela esquecesse as dores do passado e o deixasse compartilhar de seu futuro?
Jean-Luc inalou profundamente o ar para acalmar-se. Expirou em seguida, convencido de que no deveria deixar antigas lembranas interferirem em suas aes e em seus negcios. Era inegvel, porm, que o reencontro com Raquel o perturbara muito. O dio que vira nos olhos dela, o desgosto em sua expresso, eram bastante claros e falavam por si.
O carro movimentou-se e seguiu a trilha. Jean-Luc ainda a viu na janela, observando-o. Loira e bonita. Quantas horas havia gastado viajando at l na inteno de convencer Raquel a aceitar sua ajuda? Muitas. E a granja no passaria de uma gota d'gua em seus negcios. No ntimo, reconheceu, queria rever Raquel, mesmo que fosse por apenas alguns minutos.
Ela no se afastou da janela, mesmo quando o automvel saiu de seu raio de viso. As nicas evidncias de que Jean-Luc estivera ali eram o aroma inebriante de sua colnia e o batimento apressado do corao de Raquel.
Mal podia acreditar na visita do antigo namorado e no sabia se suportaria v-lo no jantar. Raquel segurou a cabea entre as mos e soluou dolorosamente.
Naomi entrou em seguida. A velha senhora apressou-se na direo dela, a testa franzida revelando preocupao.
	Querida, por que est chorando? O que h de errado?
	Tudo! Tudo!  Ela revia as cenas do encontro com Jean-Luc.
	Pode chorar. Faz bem. Acho que no a vejo chorar desde o funeral de tia Clara. No  bom guardar as emoes. Sei que sente saudade dela.  Naomi fez uma pausa para passar o brao pelo ombro de Raquel.  Onde est seu visitante?
	J saiu.
	Ficou pouco tempo  ela comentou, oferecendo a Raquel uma caixinha de lenos de papel.  Ele  o responsvel por sua tristeza? Deveria ter me chamado. Eu mostraria a ele como ser amvel e respeitoso. Era um cobrador?
	No exatamente  explicou Raquel, recuperando a calma.
 Ele tem uma proposta para salvar a propriedade, mas ainda no disse qual. Vou encontr-lo esta noite, para jantar. 
	Vai sair com ele?  Naomi ficou horrorizada.  Mas no pode fazer isso. E um estranho, um desconhecido.
Raquel descontraiu-se e deu um leve sorriso ao ver que a mulher no reconhecera o sofisticado cavalheiro que a visitara. Se soubesse! Mas Raquel no quis contar-lhe nada naquele momento, sentia-se muito perturbada.
	E um dos scios de uma respeitvel empresa  ela murmurou.  Est tudo bem.
	Assim espero. Uma proposta, voc disse?  a voz de Naomi ampliou-se, cheia de esperana.  Talvez haja uma esperana de salvar a granja.
- No estou to certa.  Raquel terminou de enxugar os olhos. - Mas, se houver uma chance, eu no a perderei.
Raquel no fez mais nada de produtivo naquele dia. Almoou, deitou-se para descansar e demorou-se na escolha da roupa que vestiria para sair com Jean-Luc. No que isso importasse tanto, mas havia diferena entre fazer algum esforo para estar apresentvel e no fazer esforo algum. Por fim, ela decidiu que, por orgulho, precisava mostrar-se atraente e separou um vestido preto e longo de mangas compridas, simples mas elegante, feito da mais fina l.  .
O carro chegou na hora aprazada. Andando nervosamente no saguo, Raquel tremeu de susto ao ouvir a campainha. Estava nervosa. Mais que isso, petrificada. A visita de Jean-Luc havia tido um efeito debilitante sobre ela. Por isso, contra seus hbitos, resolvera descansar, e junto com o repouso vieram lembranas de dias mais felizes.
Acorde, Bela Adormecida!
Raquel obedeceu  voz sensual que falava em seus sonhos. Reclinou-se na cama, envolvendo o corpo esguio com os macios lenis de linho.
Voc sempre  to bonita de manh?  provocou Jean-Luc com seu sedutor sotaque francs.  Vamos, querida, abra bem esses lindos olhos.
Com um olhar sonolento, ela deparou com o rosto bonito e vigoroso de Jean-Luc, e moveu a mo para tocar-lhe o queixo anguloso.
Jean-Luc?  Raquel sorriu meigamente, mal acreditando que ele estava ali.  O que est fazendo...
Ele no a deixou continuar, nem ela se importou com isso. Os lbios dele procuraram sua boca de modo possessivo, e Raquel entregou-se ao beijo apesar da hora imprpria, de seu entorpecimento e da possibilidade de o quarto ser invadido por uma das empregadas ou, pior ainda, por tia Clara.
Ela enlaou com as mos o pescoo de Jean-Luc e prolongou o beijo at sentir a fora e o calor que emanavam daquele homem. Agora, passado tanto tempo, Raquel pensava em como tinha sobrevivido sem ele, sem suas carcias arrebatadoras.
Jean-Luc era to corajoso, to divertido, to alienado que poderia ser confundido facilmente com um ser de outro planeta. Entrara em seu mundo fechado, alterando toda sua perspectiva de vida.
	Depressa, querida. O dia est bonito e no quero perder um minuto.  Beijou-a de novo, desta vez rapidamente, abaixou-lhe os braos e tirou os lenis que a cobriam, sorrindo deliciado  viso de Raquel em um pijama de seda.
	Est frio  ela reclamou, olhando para seu traje de dormir e desejando estar mais sedutora para Jean-Luc.  Meu quarto no tem aquecimento central.
	No se preocupe  disse ele diante do fingido embarao de Raquel.  Voc est linda.  Correu um dedo ao longo dos botes da blusa do pijama, atormentando-a com a delicadeza de seu toque.
	No estou sofisticada nem cativante?
	Sofisticada no, cativante sim. Pura tentao. Jean-Luc a fitou com insistncia, o desejo expresso em seu olhar.   impossvel resistir a voc.
	No tente  ela disse com um sorriso malicioso. Nunca tinha sentido aquela nsia de entrega e a promessa de volpia com namorado algum.  Sei como me sinto em relao a voc.
	Para mim  igual.  Ele a prendeu no crculo de seus braos para beij-la de novo com ardente paixo.  E para sempre.
	Est falando srio?  ela sussurrou quase sem flego.
	Claro.  Ele a fitou com severidade e afagou-lhe o rosto.
Raquel adorava sentir-se irresistvel para ele. Simplesmente se amavam, sem reservas e sem pudor.
Estavam no quarto dela havia vrios minutos, e Raquel imaginou que jamais esqueceria aqueles momentos. No importava o que tia Clara pensasse. Ela era incapaz de entender a profundidade do sentimento que os uniam. Mas, se ela soubesse que se tratava de um relacionamento srio, tudo ficaria melhor. Tia Clara se alegraria por sua sobrinha, sabendo que ela finalmente havia encontrado o amor.
	Ento, vamos ficar aqui?  ele perguntou.
	Sabe que no podemos  respondeu ela.  Se Naomi ou tia Clara nos encontrarem...  Raquel prestou ateno a qualquer som vindo do corredor.  Como conseguiu entrar em meu quarto, afinal? E bvio que no tocou a campainha.
	Pareo louco?  replicou Jean-Luc com um esboo de sorriso.  No, fiz o que  certo. Entrei pela entrada de servio.
	Mas Naomi no estava na cozinha?
	Sim, mas muito ocupada em limpar a pia. Distrada.  Fez um gesto engraado com as mos.  Ento, escorreguei para dentro e eis-me aqui.
	Voc  incorrigvel.  Ela beijou-lhe a boca, feliz. Depois tomou-lhe os cabelos nas mos e aspirou profundamente seu perfume.
Jean-Luc afastou-se bruscamente da cama. Raquel sabia que ele tivera de exercer toda a sua fora de vontade para erguer-se.
	Vista-se, querida.  uma bela manh. Vamos passear.
Ela o atendeu. Nunca lhe ocorrera recusar um convite do amado. Por que recusaria? Liberdade e diverso, paixo e xtase tambm era tudo o que queria.
Jean-Luc abriu a janela corredia enquanto Raquel ia ao banheiro e vestia uma cala jeans e uma malha. Ao voltar, ela o encontrou ainda  janela, respirando o ar da manh primaveril. Adorava ficar olhando para ele, admirando os ombros largos, os cabelos pretos levemente ondulados que encostavam no colarinho de sua camisa, a cala justa que lhe delineava a forma das pernas vigorosas e dos quadris estreitos. Jean-Luc era um sonho tornado realidade. Simples assim. As sensaes de desejo e excitao os haviam acompanhado desde o dia, dois meses antes, em que ele comeara a cuidar dos jardins para sua tia, a fim de complementar sua magra mesada de estudante.
	Pronta?  Estendeu a mo e puxou Raquel para a janela.
 Vamos tomar uma rota alternativa. E completamente seguro.
Ela vacilou, assustada.
	Um p na borda da laje, depois um pequeno salto para a liberdade.
	Se houvesse tocado a campainha ao entrar, seria mais fcil sair.
	Mas muito menos divertido. E, a esta hora do dia, precisaria enfrentar o olhar de desaprovao de sua tia. Ser que ela um dia pensou que o jardineiro poderia fazer a corte  patroa donzela?
	No vamos falar disso agora  ela pediu, colocando dois dedos sobre os lbios dele.  Tia Clara s est me protegendo. Tenho dezoito anos, afinal, e sou sua nica parente viva. O que voc quer?
	Quero sufoc-la com meus beijos.  Fez uma expresso
malvada que logo derivou para um sorriso.  Ser que tia Clara acha que vou violentar voc? Ela no confia em mim porque sou estrangeiro. E estudante. E jardineiro.
 Jean-Luc, por favor, no exagere.  Raquel olhou ansiosamente para a porta do quarto.
Bastou um passo para ele chegar perto dela e abra-la com fora, sentindo-lhe todas as curvas contra seu corpo.
	Talvez no fosse m ideia...  ele insinuou em tom srio.
	Voc  mesmo incorrigvel.  Afastou-se dele.  E irreverente tambm. Mas por isso mesmo  que gosto tanto de voc.
	Gosta? Ou ama?
Ela preferiu demonstrar o que sentia abraando-o e beijando-o. Estava incrivelmente feliz. Jean-Luc passara a significar tudo para ela. Raquel o seguiria at o fim do mundo se ele pedisse, andaria descala sobre brasas se isso garantisse passar o resto da vida com ele.
Uma breve jornada pela laje da casa no era nada.
Pularam a janela e saram correndo de mos dadas pela trilha de cascalho, rumo ao campo verdejante que circundava a manso.
Indiferente ao resto do mundo, Raquel desfrutava daquela felicidade. Ela amava Jean-Luc com toda a inocncia de seu jovem corao. Nunca imaginara, porm, que as confisses de amor da parte dele, nos momentos mais apaixonados, eram vs como as promessas de ficar com ela para sempre.
Nos dias que se seguiram  partida de Jean-Luc, Raquel tentou manter a f no amor dele, a esperana de que voltaria logo, simplesmente porque a amava.
Naquela tarde de sexta-feira, ela havia se despedido de Jean-Luc com um beijo, confiante em que ele estaria na granja logo mais na segunda de manh. Ocupara seu fim de semana visitando uma amiga.
A princpio, Raquel recusou-se a acreditar no que acontecera, mas o bilhete de Jean-Luc, colocado na mesinha de seu quarto, no deixava dvidas. Um bilhete amvel, to amvel que chegava a ser ofensivo, falando do sofrimento que era dizer-lhe que no queria mais v-la. O tom demasiadamente gentil e distante do bilhete magoara Raquel. Depois de tudo o que tinham vivido intensamente, aquele texto parecia de autoria de um estranho.
Mas ela havia aprendido com Jean-Luc a ser corajosa, a no desistir facilmente. Como o queria mais que tudo no mundo, tentou localiz-lo. Ficou desolada ao perceber quo pouco sabia sobre ele. A no ser pela regio da Frana de onde viera, Jean-Luc era um desconhecido at para seus colegas de escola, que ela procurou um a um com peculiar ansiedade. Ele quase no falava sobre si mesmo, sobre sua famlia ou sobre qualquer detalhe mais preciso.
Era difcil lidar com um corao partido. Impossvel, de fato. E tia Clara foi bastante acolhedora ao ouvir Raquel confessar o motivo de sua tristeza.
	Querida, voc sabe que nunca gostei de v-los tanto tempo juntos. Acha mesmo que haveria futuro para vocs?
	O que quer dizer?  Raquel livrou-se do abrao compadecido da tia e saiu em defesa de Jean-Luc.
	Ele  jovem e vigoroso, s dois ou trs anos mais velho que voc. Com certeza tem suas prprias ambies e vai tratar de ganhar a vida antes de pensar em casamento.
	Isso no seria obstculo ao nosso amor  ela disse inconformada, quase chorando.
Tia Clara sugeriu ento uma viagem aos Estados Unidos, para visitar parentes distantes. Embora relutante nas primeiras duas semanas sem Jean-Luc, Raquel logo percebeu as vantagens de afastar-se dali. As novas paisagens que veria, as novas pessoas que conheceria, nada lhe lembraria Jean-Luc como cada flor, cada tufo de grama existente na granja.
Mas depois da viagem, a rotina revelou-lhe a crueldade da situao. Mesmo agora, passados seis anos, ela ainda recordava a dor rascante que acompanhava o momento em que acordava sem Jean-Luc do lado. E havia os sonhos, muitos sonhos, que pareciam escarnecer dela com imagens dos dois se beijando, amando-se voluptuosamente.
Raquel alisou o vestido, deslizando as mos pelos quadris. No espelho do saguo, a maquilagem aparentava ser excessiva, sobretudo o batom vermelho. Limpou um pouco os lbios com o leno de papel que tirou da bolsa. Agora ela estava mais plida, mais frgil, mais de acordo com o usual.
Abriu a porta com dedos trmulos. Jean-Luc viera para acompanh-la, e no o motorista, como ela esperava. Ele guardou certa distncia e ficou olhando para os canteiros que margeavam a trilha de cascalho. Havia trabalhado neles como jardineiro.
	O lugar est um tanto abandonado, no?  ele comentou, e s ento reparou em como Raquel estava estonteante. Havia nela um toque de sofisticao, um brilho de confiana prprios da profissional de sucesso que ela era.  Se estiver pronta...
	Aonde vamos?  A voz soou dbil em comparao com a dele.   longe?
	Uns vinte quilmetros daqui. Temos mesa reservada para as oito e meia.
Ela o seguiu at o carro. Era outro automvel, ainda maior e mais bonito daquele em que o vira anteriormente. O motorista abriu-lhe a porta traseira com um leve sorriso, e Jean-Luc entrou pelo lado oposto. A pretexto de olhar pela janela, Raquel sentou-se prxima  porta.
	A casa toda precisa de pintura e de cuidados  observou ela, certa de agradar ao senso crtico de Jean-Luc.  Voc deve sentir-se mal vendo o atual estado da granja.
	Ainda h muito charme  replicou ele.  E ainda  seu lar.
	Mas por quanto tempo?  ela comentou com tristeza.
	No vou saber antes de falar com voc e os outros interessados. Gostaria que voc confiasse em mim, embora possa entender o choque que foi ver-me de novo.
	Pode entender?  Raquel fuzilou-o com o olhar.  Voc entende tudo.
	Raquel...  Ele estendeu a mo, tentando confort-la.
	No estou interessada em entender!  A voz saiu rouca, e ela sentiu a boca seca.  No quero saber como voc obteve sucesso na vida, o que fez nos ltimos anos, nada. S estou aqui por causa da granja. Nada mais!
Ele apenas a fitou no fundo dos olhos, fazendo-a sofrer com a intensidade daquele olhar to provocativo, to cheio de poder e autoridade.
 Eu compreendo  murmurou.  Mais do que voc imagina. 
Pequeno e aconchegante, o restaurante ficava em uma ci-dadezinha pitoresca da regio. Era .sofisticado, e eles foram atendidos rapidamente. Em poucos minutos serviram-se de es-calops ao molho de cogumelos, batatas coradas e vinho. Falaram de generalidades e comentaram a decorao um tanto inspida do lugar. Finalmente,  hora do caf, Raquel deu vazo a sua ansiedade de discutir o assunto que os havia trazido ali.
	Penso que o banco pode me dar mais prazo  ela comeou.
	Desista  disse Jean-Luc em um tom cruel, fazendo-a franzir a testa de preocupao.  A granja  uma causa perdida.
	Se  assim  ela manteve a calma , o que quer falar comigo?
	S um momento.  Ele fez um suspense proposital, enquanto tomava o ltimo gole de gua. Parecia apreciar a nervosa expectativa de Raquel.  Creio que a manso  ideal para a instalao de um hotel de alta classe, com spa, centro de convenes e tudo o mais.
Ela entreabriu os lbios, disfarando a surpresa. No primeiro momento, sua mente rejeitou a proposta, mas depois reconheceu que a ideia de Jean-Luc era vivel.
	Est brincando, por acaso?  ela inquiriu.
	De modo algum.  Ele a fitou com seus olhos de bano.
	Nunca brinco quando falo em negcios.
	Acredita realmente no sucesso deste?  Raquel ajeitou os louros cabelos com as mos e encarou Jean-Luc, ao mesmo tempo que meditava na possibilidade de construir sutes, bar e restaurante, salas de reunio e centros de lazer. A imagem a agradou.
	No estou falando de milagre, mas de um negcio que pode trazer benefcios a ns.
	Est me propondo uma sociedade?
	Honestamente, Raquel, no vejo outra sada. Est interessada?
Ele ergueu as sobrancelhas, aguardando a resposta dela.
	Deve haver outro meio!  exclamou Raquel exasperada.  Por que pensou em transformar a granja em hotel? E meu lar!
	No por muito tempo. Voc mesma admitiu. Mas voc poder morar no hotel ou at mesmo construir uma casa nos fundos. Nas atuais condies, esta  a soluo mais vivel.
	Desfigurar a casa em que minha famlia viveu tantas geraes?
	Sua tia Clara morreu, e a granja  de sua responsabilidade 	ele argumentou.  Sei que perdeu seus pais em um acidente de carro.  trgico, mas a falncia no ser menos trgica.
Raquel afastou sua xcara de caf e sentiu um peso no estmago. Ela adorava seu trabalho no hotel do litoral. Era desafiador e gratificante gerenciar o lugar dia aps dia, resolvendo os mais inesperados problemas.
No queria abrir mo do que tinha conquistado com tanto esforo.
	No sei, Jean-Luc. Tenho dvidas  ela confessou.
	Mas se no aceitar minha proposta, ter de fazer as malas, mudar-se, despedir Naomi e todos os funcionrios, e entregar as chaves da casa ao banco.  Ele estava sendo particularmente cido.  O que imagina que o banco vai fazer quando tomar posse da propriedade?
Raquel olhou para as prprias mos, evitando o olhar questionador de Jean-Luc. 
	No pensei sobre isso.
	No seja ingnua. Certamente faro um hotel ou vendero para algum grupo hoteleiro que vai retalhar a casa em apartamentos para hospedagem.
	Ainda no perdi a propriedade, Jean-Luc  Raquel persistia teimosamente.  Ainda posso ganhar tempo.
	No h mais tempo. Sua tia j prorrogou a dvida quanto pde. Voc ficar sem nada.
Gostaria de saber por que voc se preocupa tanto.
Jean-Luc preocupava-se mais do que era capaz de admitir.
Respondeu com rispidez, em uma atitude defensiva.
	Nada pessoal, se  isso que a intriga. Faz tempo que estou procurando propriedades nessa regio, para investimento. No s para mim, mas para meus clientes.
	Ah, seus instintos predatrios esto de volta! Voc provavelmente ter prazer em derrubar a granja at o ltimo tijolo e ainda ganhar muito dinheiro.
	J tenho dinheiro suficiente, Raquel.  A fria declarao foi acompanhada do gesto de levantar-se e atirar o guardanapo sobre a mesa.  Est claro que voc no levou minha proposta a srio. Preparada para encarar as consequncias desse erro.
Raquel olhou para ele horrorizada.
Est indo embora?  ela perguntou.  Assim, de repente?
No vejo razo para ficar. Voc realmente no est interessada.
Tenso, aborrecido consigo mesmo por no ter conseguido manter a calma, Jean-Luc parou brevemente no balco para pagar a conta e caminhou para a porta.
Perplexa, Raquel permaneceu sentada por um momento, vendo Jean-Luc sair. Sua mente confusa havia entendido as palavras dele como uma ameaa. Perderia realmente seus bens? Seria possvel confiar no homem que a magoara tanto? Ergueu-se com desnimo, passou pelas mesas em que casais riam e conversavam animadamente, e foi atrs de Jean-Luc.
Postou-se  entrada do restaurante, agradecida  brisa da noite que lhe refrescou o rosto.
O que fazer? Era uma situao de pesadelo, com a qual se sentia incapaz de lidar. Jean-Luc estava preocupado apenas com seus negcios. Para um homem como ele, dinheiro nunca era suficiente demais.
L fora, a primeira sensao de Jean-Luc foi de alvio, porque havia riscos em sua proposta, e ele havia insistido com Raquel alm do que recomendava o bom senso. Ele percebera que a reao dela tinha sido emocional e instintiva, mesmo assim considerou esgotado seu poder de persuaso.
Quer uma carona?
Raquel girou o corpo. Jean-Luc estava atrs dela, examinando sua figura com segundas intenes.
	Ainda quero conversar sobre a granja  ela disse com um suspiro.
	J no dissemos tudo o que havia a dizer?  ele provocou-a.
	No.  Ela meneou a cabea.  Talvez eu tenha me precipitado.
	Talvez?  Seus olhos escuros pareciam aprision-la.  Vamos entrar no carro.
	Prefiro falar em particular.
	Emil pode ir comer alguma coisa enquanto conversamos.
 Jean-Luc adiantou-se a ela e tomou as providncias necessrias. Logo estava abrindo a porta do automvel para Raquel.
Consciente da sensao de fraqueza que a situao lhe impunha, ela o amaldioou em silncio.
	Concordo que sua proposta  bastante vivel  disse sem delongas, procurando a objetividade das relaes comerciais.  J pediu um estudo de mercado, para dimensionar o potencial do hotel?
	H muita gente querendo a propriedade, a comear pelo banco, e isso prova que o potencial existe.
	Mas no recebi outras propostas. Talvez amanh, no banco...
	Esquea. Quero que voc dirija o hotel  ele informou bruscamente, provocando o espanto de Raquel.  Esta  uma das condies da qual no abro mo.
	Por que eu?  ela quis saber, enquanto procurava dominar a surpresa.
	Conhece algum mais qualificado nas vizinhanas?  O tom de Jean-Luc era seco.  Sei de seu bom trabalho no hotel em Costwolds. Aqui voc seria a gerente geral e, em parte, a proprietria. Poder descansar  vontade.
	Eu no descanso!  Raquel ficou furiosa, sentindo-se ofendida.  Eu trabalho!
	Enquanto durar a reforma, voc poder continuar trabalhando no outro hotel, se quiser. E um bom arranjo. Naturalmente, ter um ou mais assistentes para ajud-la. Todos ingleses.  Ele sorriu com ironia.  Juro que no vou zombar deles por isso.
	Voc sente prazer com tudo o que est acontecendo, no?
 Raquel acusou-o.  No pensa em um negcio lucrativo, mas apenas em me humilhar!
	Estou salvando a propriedade de sua famlia e oferecendo-lhe um bom emprego como parte do acordo. Se considera isso uma humilhao...
Raquel levou as mos ao rosto, cobrindo os olhos. A cabea lhe doa.
	No vamos perder mais tempo  props Jean-Luc.  Meu procurador far uma minuta de contrato, certamente justo, para no dizer generoso. Se voc assinar, amanh eu mesmo irei ao banco para negociar a dvida.
	Assinar?  Raquel arregalou os olhos.  No me lembro de ter concordado com isso.
	Mas voc vai concordar.  O tom de Jean-Luc era impaciente e impositivo.  No vai?    

CAPTULO III

Naomi ficou incrivelmente feliz com a possibilidade de transformar a granja em um hotel e no viu nada de errado na proposta.
	O que interessa  que a propriedade vai continuar com a famlia  ela comentou enquanto servia a Raquel o caf da manh.  Tem certeza de que o emprego de todos os funcionrios da granja estar garantido na nova sociedade?
	Sim  confirmou Raquel, passando gelia em uma torrada.  Para quem quiser ficar, naturalmente.
	Ele  muito simptico...  Naomi no parava quieta na cozinha e foi at o fogo pegar gua quente para o ch.  Sabe? Ele me lembra muito aquele rapazinho francs abusado que esteve por aqui.
	O qu?
De costas, Naomi no viu a expresso agoniada de Raquel.
	Bem, ele  rico e sofisticado.  A mulher lanou-lhe umolhar interesseiro.  E no  francs...
	No?
	Ser que ? No notei sotaque algum quando falou comigo.
 Pano na mo, Naomi comeou a limpar com vigor a pia da cozinha.  O tipo do homem que sua tia aprovaria.
	Vamos ter uma grande reforma por aqui, Naomi  disse Raquel, controlando sua irritao.
	Sim, mas tudo sob sua superviso.  A velha senhora girou o pano na direo de Raquel.  Quero dizer, o bom gosto ser mantido.  o que diz minha intuio.
Raquel levantou-se da mesa e levou a loua que usara at a pia. Sentiu-se tentada a revelar a verdade sobre quem era Jean-Luc Manoire, mas o simples fato de pensar nele deixou-a infeliz e confusa.
Naomi acabaria descobrindo sozinha a identidade dele, mas Raquel ficaria feliz se isso demorasse bastante a acontecer. Precisava se acostumar-se a tratar de negcios com Jean-Luc.
	Preciso me vestir  murmurou ela.  No quero me atrasar.
	Seu conjunto azul est lavado e passado  avisou Naomi.
 Viu meu bilhete?
Raquel estacou na porta da cozinha.
	Que bilhete?
	Deixei na mesa do corredor. Sean telefonou ontem  noite.
	E o que lhe falou?
	Que voc tinha sado. Ele disse que vir aqui. Parecia aborrecido.  Naomi, sempre desatenta s reaes das pessoas, ignorou o olhar desconsolado de Raquel e continuou alegremente:  Hoje ele ligou novamente e contei as novidades a respeito da granja e que voc estava bem mais calma. Ento, podia ser que voc e ele...
	Naomi!  Raquel passou a mo pelos cabelos, ponderando se aquele era um bom momento para dizer  mulher que no se intrometesse em sua vida particular, mesmo sendo Sean seu sobrinho-neto.  No devia ter falado nada. No quero que ele saiba de meus negcios e, alm disso, as mudanas no esto totalmente definidas.
	Mas logo estaro, no ?  Naomi frisou seu pensamento
simplrio com um sorriso satisfeito.
	Sim, mas no se trata disso.  Raquel suspirou profundamente. Duvidava de que pudesse enfrentar o dia de tenso e ansiedade que se desenhava. Encontrar-se com Jean-Luc j era bastante difcil, queria evitar a presena inoportuna de Sean.
Desistiu de repreender Naomi, pois de nada adiantaria. Olhou para o relgio da cozinha e concluiu que no tinha mais tempo a perder. Sua agenda estava lotada.
Os advogados da tia, os procuradores de Jean-Luc, o pessoal do banco, todos se mostraram contentes com a proposta da JSJ Empreendimentos. Apesar das muitas dvidas de Raquel, eles a pressionaram a aceitar. Era claramente uma oferta irrecusvel.
Ansiava por voltar para casa, o que fez logo que os documentos foram assinados e registrados em cartrio. J era o comeo da noite, e Raquel precisava desesperadamente de um tempo para si prpria, a fim de assimilar as grandes mudanas que estavam por acontecer em sua vida.
Ela no ousou pensar no futuro. Era impossvel prever qualquer coisa. A proposta de Jean-Luc tinha sido generosa, confirmada, depois, pela reao do gerente do banco. O lucro o empreendimento, apesar das acusaes que ela lhe dirigira no jantar da noite anterior, ficava em segundo plano. Ento, quais os motivos que o faziam agir assim? Por que viera resgat-la da falncia? O que esperava ganhar com aquilo?
Essas questes preencheram de tal modo a mente de Raquel, que lhe causaram uma leve tontura. Por que Jean-Luc tinha voltado. Por qu?
Raquel vestiu um folgado moletom verde e cinza e dirigiu-se ao pomar que tanto amava. Queria espairecer. Notou que botes brancos acabavam de aparecer nos galhos retorcidos das macieiras. Andava lentamente, respirando fundo o ar fresco da primavera, e pensando nas tarefas que a esperavam.
Das vrias reunies do dia, ficara claro que Jean-Luc queria uma reforma rpida, de modo a inaugurar o hotel no fim do vero. Isso significava muito trabalho para engenheiros e ar-quitetos, construtores e pedreiros, pintores e decoradores.
Ela pensou na melhor maneira de recrutar funcionrios. Pessoal qualificado poderia dar um bom diferencial ao novo hotel que surgiria. E a aparncia do lugar? Casa de campo, sem dvida. Mas sem excessos. Nem tudo, principalmente os sofs do saguo, precisava ser feito de madeira rstica com almofadas soltas e desconfortveis. O hotel deveria ter um estilo prprio, concluiu, que ficasse na memria dos visitantes.
Um passarinho bailou no ar perto dela e pousou em um galho da macieira. A viso a reconfortou. Estava sendo precipitada. Fazia apenas um dia desde que Jean-Luc lhe jogara a bomba no colo, e l estava ela meditando, planejando, organizando.
Na verdade, ponderou Raquel, concentrar-se em assuntos profissionais era bom. Ela no escondia de si mesma que, passado o choque inicial do reencontro, ressurgira a grande atrao fsica que sentia por ele. Algo superficial, instintivo, mas forte o bastante para faz-la sonhar de novo com seus abraos e beijos.
No plano consciente, pelo menos, no o amava mais. O envolvimento com Jean-Luc tinha sido uma experincia dolorosa, mas tambm um romance ingnuo da juventude.
Acreditava realmente naquela verdade, ou a louca paixo que a arrebatava ainda poderia prevalecer?
Alheio ao ambiente, Jean-Luc caminhava resolutamente pelo pomar, at conseguir ver Raquel a distncia. Ele tinha muitos compromissos, todos importantes, mas nenhum lhe pareceu mais urgente do que falar com Raquel.
Ela parecia perfeitamente integrada ao lugar. Sem dvida, aquele era seu lar, no saberia viver fora dali. E isso era o que mais importava. Jean-Luc observou-a em silncio, perdido em lembranas do passado.
Talvez tudo fosse diferente entre eles se tivesse voltado da Frana em poucos dias, como havia planejado ao partir. Naquela sexta-feira, seis anos atrs, Jean-Luc havia recebido um telefonema urgente de sua casa, avisando que o pai estava doente. Raquel tinha ido visitar uma amiga, alis por incentivo dele. Deixou um bilhete e viajou, sem duvidar de que ela o estaria esperando na volta.
Seis anos era muito tempo, mas Jean-Luc podia imaginar a expresso triunfante de tia Clara ao dizer a Raquel que ele no merecia sua confiana e convenc-la a tomar um avio para os Estados Unidos.
Jovem e dinmico, mesmo apaixonado, Jean-Luc no sentiu a rejeio como uma catstrofe. Aconteceria cedo ou tarde, devido  autoridade que a tia exercia sobre Raquel.
Quanto tempo levaria para conformar-se com a ausncia dela em sua vida? Dias, semanas, meses. Raquel mandou-lhe uma carta para a Frana, causando-lhe dor e angstia. O texto era cheio de paixo e gratido, mas tambm cruel na maneira como afastava qualquer esperana de um futuro em comum.
Pensara em voltar, mas o desgosto e a raiva o mantiveram de mos atadas. Enterrou no fundo do corao o amor por Raquel e dedicou-se a uma carreira profissional como contador, depois economista, e por fim consultor financeiro firmemente estabelecido. No tinha sido fcil, ele pensou, mas nada to difcil como suportar o afastamento de Raquel.
Jean-Luc respirou fundo e continuou andando.
Naomi disse que eu a encontraria aqui.
Raquel voltou-se ao som da voz dele. Assim como ela, ele havia trocado o terno por um informal traje esporte. A Raquel, pareceu-lhe que era o Jean-Luc de outrora quem se aproximava. Seu corao reagiu com sobressalto.
	O que quer?  Tentava controlar-se, mas no conseguiu evitar que sua resposta soasse to seca.
	No gostaria de conversar um pouco com seu scio?  ele perguntou, fixando nela os intensos olhos escuros.
	No, Jean-Luc. No somos scios.
	Ento voc no prestou ateno ao contrato, esta manh.
 Ele olhou em volta, reparando na beleza da granja ao entardecer.  Temos uma sociedade.
	S no papel  disse ela acidamente.
	De fato, mas  uma sociedade.  Ele ergueu as sobrancelhas, preocupado.  Ah, Naomi pediu para avisar-lhe que deixou uma salada completa na geladeira.
	Tenho tido pouco apetite nos ltimos dias.
	Compreendo. Mas voc vai se sentir melhor, agora que est tudo arranjado.
	Tudo arranjado?  Raquel fitou-o com espanto.  Voc no pode estar falando srio.
	Estou sim.  Jean-Luc manteve os olhos nela, consciente de seu poder hipntico.
	Ainda no acredito que est fazendo isso comigo.
- Voc faz a negociao parecer enganosa e injusta. Raquel caminhou um pouco, de cabea baixa, ento virou-se para ele, sem ocultar sua exasperao.
	Por que me procurou, afinal?  isso o que mais me preocupa.
	J andamos juntos por aqui antes  ele observou casualmente, como que tentando reduzir a tenso existente no ar.
 Talvez voc tenha se lembrado disso quando passou pela estrada e adivinhou que eu precisava de um milho de libras. Ento, pensou: por que no parar e ajudar uma velha amiga?
Raquel sentiu a frieza na prpria voz e fechou os olhos. Inalou profundamente, tentando aplacar sua alma atormentada.
Nunca fomos amigos. Fomos muito mais.
	Por favor, Jean-Luc, deixe o passado enterrado.
	Raquel, meus motivos so irrelevantes. Fizemos um contrato justo, e com isso voc no precisa se preocupar.
	Preocupar?  O tom de voz j era calmo.  Minha casa vai ser posta abaixo e estou sendo forada a abandonar um emprego que adoro. No tenho nada com que preocupar...
	Bem, seus problemas ficaram drasticamente reduzidos desde que eu apareci.  Ele empertigou-se todo e falou com firmeza:  No espero nem desejo sua gratido, mas gostaria que voc se empenhasse no sucesso do empreendimento. Sei que gosta de um bom desafio.
Raquel hesitou por um instante,  procura de uma resposta honesta.
	Certo, voc tem razo. Mas isso no quer dizer que eu esteja feliz com seu envolvimento na questo.
	Tenho certeza de que o negcio ser lucrativo para ambos.
Voc deve pressentir que fez o que era certo.
	Deixando que voc entrasse de novo em minha vida?  a resposta de Raquel foi rpida, automtica.
 No deixe que nossos problemas pessoais interfiram nos negcios. Gostaria de no discutir nesses termos, cada vez que estiver aqui.
	E voc pretende vir muitas vezes?  Aquela perspectiva deprimia Raquel.  No h necessidade...
	Com certeza h necessidade, Raquel  ele retrucou com acidez.  Estou investindo uma soma considervel no projeto. Vou precisar, de algum modo, supervisionar sua execuo.
	Mas... voc no tem uma equipe para fazer isso?
	Sim, claro. S que toda a parte financeira deve ficar aos meus cuidados.
Ela pigarreou e insistiu de novo, modulando a voz o melhor que pde:
	Mas voc me disse... Enfim, deu-me a impresso de que haveria pouco envolvimento pessoal.
	Mudei de ideia  ele informou friamente.  Os anos enganam a memria. Tinha me esquecido de como este lugar  bonito.
	Por que est fazendo isso comigo?  Raquel indagou.  Por que est sendo to...
	Determinado? Teimoso? Sempre fui. E em todos esses anos, esta atitude me ajudou a chegar onde cheguei.
	Arrogante e sem princpios no seriam termos melhores?
 Ela tremeu levemente com a prpria coragem. Jean-Luc pareceu avanar com raiva em sua direo. Mas a energia dele, a incontida virilidade e paixo que lhe compunham a personalidade, eram como uma fora tangvel que a manteve paralisada.
	No quero brigar com voc, Raquel  ele disse, controlando a ira.  Em benefcio do projeto.
	Tem razo. Desculpe-me. Mas precisa entender que  difcil para mim, depois de tanto tempo.  Ela meneou a cabea, sem perder o ar corajoso.  No esperava v-lo de novo, nunca em minha vida.
Nem eu a voc  replicou ele, olhando-a ternamente.
Ser que Jean-Luc se desculparia por ter ido embora? Ela gostaria de ouvir explicaes? Daria seu perdo? Realmente se sentiria melhor com isso?
Quando ele retomou o dilogo, Raquel esperou notar algum indcio de remorso, mas isso no aconteceu.
	Quando comear a reforma, voc precisar mudar-se da casa. Posso ajud-la a escolher um lugar.  Jean-Luc continuava sendo um prtico e frio homem de negcios.
Raquel deu-lhe as costas, procurando aliviar a tenso.
	No  preciso. H a velha casa de hspedes, que tia Clara reformou pensando em alugar. Est em bom estado, pois acabou no sendo alugada.
	Realmente, tia Clara s sabia gastar dinheiro, e nunca ganh-lo.
Raquel ignorou o comentrio, por verdadeiro que fosse, pois j estava imersa em doces lembranas. Para ela e Jean-Luc, a casinha havia sido um refgio, um de seus ninhos de amor.
	Gostaria de ver a casa  ele pediu neutramente.
	Agora?  Ela no escondia a emoo na voz.  A chave est no mesmo lugar. 
Fora um erro acompanh-lo. Ele parecia no se importar com a visita, enquanto ela tentava banir da memria as noites que tinham passado ali,  luz de velas, um nos braos do outro.
A chave fora encontrada debaixo do tapete de sisal junto  porta. Desabitada havia anos, a casa estava coberta de poeira, mas continuava aconchegante, sobretudo  luz do crepsculo. Raquel abriu a janela da sala e deixou entrar o ar fresco. Debruou-se no parapeito e ficou olhando, pensativa, para os narcisos amarelos que cobriam parte do pomar.
	Parece uma casa de bonecas  comentou Jean-Luc atrs dela.  Ou fomos ns que crescemos?
	Ns crescemos  asseverou Raquel, pensando especifi camente em si mesma.
	J tinha considerado antes a possibilidade de vir morar aqui?
	Sim  ela confessou.  Mas tia Clara vetou a ideia.
	Voc nunca contrariou sua tia, no  mesmo?
	No, claro que no.
Raquel inspirou, profundamente o ar que soprava do pomar, e s ento voltou-se para fitar Jean-Luc.
	O que voc quis dizer com isso?  ela o interrogou.
	Nada, nada.  Ele desviou o olhar, no querendo desa fi-la.  Ela foi muito importante em sua vida.
Raquel confirmou com um leve movimento de cabea. Jean-Luc olhava obsessivamente para o alto.
	Acho que devemos subir para verificar o estado do teto.
Pode precisar de algum conserto e seria melhor faz-lo antes da temporada de chuvas.
	V voc  ela disse secamente, voltando  janela.  Prefiro ficar aqui.
	S irei quando demonstrar algum interesse  ele retrucou sem maior nfase. Aproximou-se por trs dela e colocou ambas as mos nos ombros de Raquel, falando-lhe junto ao ouvido:
 Afinal, voc  que vai morar aqui por alguns meses.
A atitude e a voz de Jean-Luc eram desafiadoras, perigosas. Raquel no conseguia mover-se, mesmo se quisesse, e seu corpo arrepiou-se com a proximidade dele. Atravs das roupas, ela pde sentir o corpo masculino colando-se em suas costas. As formas viris de Jean-Luc lhe eram familiares, conhecidas demais. Nem por isso deixou de experimentar uma vibrao agradvel que lhe tomou todos os sentidos.
Est bem. Vou com voc  ela disse quase sem flego, procurando dar  voz um tom tranquilo.
Raquel segurou a respirao enquanto Jean-Luc se afastava de seu corpo. O sorriso dele, quando ela finalmente o fitou no rosto, dizia mais do que o prprio gesto de abra-la. Ele sabia como era fcil excit-la. A intensidade do olhar, o calor que emanava de seu corpo, apenas comprovavam isso: ele sabia.
Ao subirem, mantiveram entre si uma distncia suportvel.
O teto parece em ordem. Este  o melhor quarto da casa comentou tensa.  H uma bela vista para o pomar. Talvez eu traga para c alguma moblia da manso. A no ser que voc queira tudo para o hotel.
Jean-Luc olhava pela janela do quarto e no pareceu ouvir o que ela dizia. Um silncio opressivo instalou-se entre eles.
Ouviu o que eu disse?  ela indagou.
S ento ele voltou-se, fitando-a com ar de curiosidade.
	Naomi pediu-me para lhe dar um recado. Voc recebeu um telefonema.
	Sim? De quem?
	De algum chamado Sean. Parece ansioso para encontr-la. Est saindo com ele?
Raquel parou de inspecionar o quarto e olhou firme para Jean-Luc, aborrecida com a interferncia.
	Por que pensou isso?
	Naomi mencionou alguma coisa...
 Bem, ela no tem esse direito.  O impulso inicial de Raquel foi de contar a verdade sobre ela e Sean, mas no havia razo para faz-lo. O namoro havia acabado definitivamente, s que Jean-Luc no precisava saber.  Obrigada pelo recado  ela continuou com um leve tremor na voz.
De nada. Imagino que foram feitos um para o outro, e que sua tia Clara aprovava o relacionamento.  A zombaria no tom de voz era evidente.  O que houve? Falei demais?
	Suas feies ganharam um ar cnico.  Naomi me deu a entender que vocs eram muito prximos.
	Como eu disse, ela no tem o direito de invadir minha privacidade.
	Ela nem se lembra de mim  disse Jean-Luc com um sorriso satisfeito.
	No, no se lembra.
	E por que voc no lhe contou?
	Porque...  Raquel balanou a cabea e deu as costas a Jean-Luc, voltando  janela. Os narcisos do pomar saram de foco sob o vu de lgrimas que ameaou cobrir seu rosto.  Porque no havia motivo.
	Estou abismado  confessou Jean-Luc, colocando-se ao lado dela.  Naomi faz tudo para agradar os outros, mas comigo sempre  reticente.
	Simplesmente ela no o reconheceu  justificou Raquel.
	Em seis anos, Naomi esqueceu sua aparncia, e seu ingls melhorou muito.
Raquel no sabia como defender Naomi daquele fato incontestvel, mas achava que, de algum modo, a atitude da mulher era em seu benefcio.
	Sempre falei um ingls perfeito. Voc no se lembra disso?
	No vim aqui para recordar os velhos tempos, Jean-Luc 	ela retrucou com exasperao.  Alis, foi tolice acompanh-lo at aqui.
	Raquel!
Ela no respondeu quando ele a chamou. Seus ps venciam dois a dois os degraus de madeira da escada. Ele a chamou de novo, e ela correu, consciente dos passos de Jean-Luc atrs dela.
Abriu a porta, avanou para o ar livre e no parou. Continuou correndo pela trilha de cascalho e atravessou o pomar, seus ps roando o campo de narcisos, os cabelos tremulando ao vento.
	Raquel!
Ela escorregou e quase caiu, as pernas j falhando. Queria alcanar a manso, onde se sentiria segura, mas as passadas longas e velozes de Jean-Luc a impediram. Ele a segurou pelos braos e obrigou-a a encarar sua expresso decidida.
	O que houve? Por que correu?
	Senti-me mal com voc naquela casa.  Fitou-o com os olhos bem abertos e uma ponta de raiva.  Deixe-me ir.
	No entendo. Est aborrecida?
	Claro que estou  ela quase gritou, ainda ofegante.  O que esperava?  Olhou para baixo e viu em seu tornozelo uma mancha de sangue. Jean-Luc tambm viu o ferimento.
	Meu Deus! Voc deve ter raspado o tornozelo na escada.
	Est tudo bem.  Raquel tentou livrar-se dos punhos dele,  Jean-Luc aumentou a presso a ponto de causar-lhe dor.
	No, no est tudo bem.  Ele tirou do bolso um leno branco, agachou-se e improvisou uma bandagem na perna de Raquel. Com isso, relaxou a presso, mas ela no fugiu.
	Voc est realmente aborrecida. Se disse alguma coisa errada, peo perdo. Sinceramente.  Moveu-lhe o queixo com a mo para que pudesse ver seus olhos lacrimejantes.
	No tem importncia.  Raquel ponderou por que se preocupava em mentir. Tudo em seu rosto e seu corpo revelava que a verdade era outra. Tudo que dissesse respeito a Jean-Luc lhe importava. Um soluo formou-se em sua garganta.
Por um longo momento, Jean-Luc lutou contra seus impulsos. Era loucura envolver Raquel entre seus braos, sentir o perfume e a maciez de seus cabelos.
Raquel fechou os olhos e tentou conter as lgrimas. Por quanto tempo sonhara estar nos braos dele? Quantas vezes ansiara por aquele abrao, desde que descobrira que ele se fora? Ela reprimiu mais um soluo, mas no conseguiu vencer a torrente de lgrimas causada pelas recordaes.
Ele finalmente a afastou, e Raquel ergueu a cabea de seu peito, incerta da prpria capacidade de continuar fingindo que no o desejava. Evitou olhar para Jean-Luc, pois com certeza ele perceberia a profundidade de seu desejo.
Pea para Naomi fazer um curativo. Promete?
A voz era calorosa, ao contrrio de momentos atrs. Ele consultou o relgio e deu um passo para o lado.
	Preciso ir. Tenho um compromisso. Voc ficar bem?
	Sim.  Raquel confirmou com a cabea e, de repente,
sentiu um vazio dentro da alma.  Jean-Luc?
Mas era tarde. Apenas acompanhou com os olhos midos as firmes passadas dele entre os narcisos, rumo  sada.

CAPITULO IV

Sean, no sei o que veio fazer aqui. J lhe disse que no h nada a conversar.
Vim pedir desculpas.
 Por qu? Voc no fez nada de errado.  Raquel fechou o longo casaco de l que a protegia do vento frio e tentou disfarar o incmodo da presena do ex-namorado.  Por favor, Sean. Deixe-me em paz.
	Voc no compreende, Raquel.  Sean colocou-se  frente dela, obrigando-a a fit-lo e ouvi-lo.  Sei que nosso relacionamento chegou a um impasse, mas quero outra chance.  A face plida de Sean mostrava sinceridade.  Garanto que dar certo.
Ela respirou profundamente o ar da noite, agora sem disfarar o tdio.
	Gosto de voc, Sean, mas...
	Gosta de mim! Ento, qual o problema? No costumo implorar deste jeito para mulher alguma.
	Sean, pare de telefonar, escrever e at mesmo de me visitar.  Raquel balanou a cabea e viu o automvel de luxo de Jean-Luc estacionar ao lado do carro simples de Sean.  No vou mudar de opinio a nosso respeito.
Sean seguiu-lhe o olhar para a trilha. Emil, o motorista, abriu a porta traseira, e Jean-Luc apareceu.
	O salvador da ptria, suponho  Sean carregou sua observao de sarcasmo.  Naomi fala dele como um deus.
	E apenas um homem de negcios  replicou Raquel, pensando que Jean-Luc fosse imediatamente procurar a jovem arquiteta que estava ali desde a manh. Ele a percebeu na varanda e caminhou em sua direo.
	Como vai, Raquel?  O cumprimento foi formal, com um sorriso breve e sem sombra de afeio. Notou Sean e franziu a testa, surpreso.  No vai nos apresentar?
Este  Sean Gallagher, sobrinho-neto de Naomi.  Ela estava sendo deliberadamente fria.  Sean, este  Jean-Luc Manoire.
Os dois homens trocaram um aperto de mos. Raquel notou que Jean-Luc no ficara nem um pouco impressionado com Sean, embora este se mostrasse simptico como sempre, at por necessidade de sua profisso de representante comercial. Em seu discreto porte fsico, era um homem amistoso e confivel.
Raquel deu um suspiro, lembrando-se de que seu envolvimento com Sean fora uma reao ao abandono que sofrera por parte de Jean-Luc, mas cedendo em grande parte  insistncia dele e de Naomi.
	Preciso de sua opinio quanto aos planos da arquiteta  disse Jean-Luc, fixando o olhar em Raquel.  Pode me acompanhar por um minuto?
Sean no gostou da interveno nem do ar de arrogncia com que Jean-Luc o dispensou. Raquel manteve-se indiferente ao v-lo sair. Ela nada podia fazer, j o alertara que o relacionamento entre os dois estava acabado. Sean inventou uma desculpa:
	Bem, tenho um cliente para visitar.
	Ento no se atrase por nossa causa  disse Jean-Luc com frieza.
	Ficarei em contato, Raquel.
Sean manteve os olhos fixos no rosto dela, tomou-ihe as mos e, em um movimento rpido, aproximou-se e beijou-a de leve na boca. Fora um gesto audacioso, inesperado, fora de propsito naquele contexto.
	Logo falaremos  ele insistiu com Raquel, embaraada diante do olhar crtico de Jean-Luc.  Esperava uma melhor recepo.
Sean afastou-se, e ela procurou disfarar o constrangimento.
	No gosto dele  comentou Jean-Luc.  No  o homem certo para voc.
Raquel estava consciente disso, mas irritou-se com o comentrio.
	No pedi sua opinio  ela falou com rispidez.
	No, mas eu precisava dizer. Conhece Sean h muito tempo?
	No importa para voc.  Ela continuou aborrecida e desviou o olhar para a trilha, onde Sean acabava de pr em movimento o carro da empresa para a qual trabalhava.  E melhor irmos falar com a arquiteta  cortou Raquel, sentindo-se incapaz de manter a discusso. Sob o vento frio, novamente apertou o casaco de l contra o corpo.  Devo aprovar alguma coisa, ou essa conversa  mera formalidade?
	Sua opinio  valiosa  garantiu Jean-Luc em um tom distante.  Vamos entrar, pois j estou atrasado.
	Talvez fosse melhor voc delegar a superviso da reforma a um funcionrio de sua confiana assim no precisaria vir sempre aqui.  um homem muito ocupado.
Jean-Luc entendeu a inteno dela, mas preferiu ignorar a sugesto, esboando um sorriso.
	Meu tempo  to precioso quanto o seu  insistiu Raquel.
 No posso ficar  disposio da granja o dia inteiro. Preciso voltar logo para Costwolds.
Era intil aquela guerra de palavras, ponderou ela enquanto caminhava para a casa ao lado dele. No levaria a nada. Jean-Luc j havia estabelecido um cronograma e planejado todas as aes, de modo que Raquel no conseguiria demov-lo de seus planos.
A arquiteta, uma jovem francesa de menos de trinta anos, mostrou-se empolgada com o projeto. Depois que ela explicou suas ideias, Raquel concluiu que seus temores sobre alteraes radicais na casa no tinham fundamento.
O encontro revelara-se proveitoso e confortador. O trabalho, embora extenso, seria completado em partes, e o prdio principal seria o primeiro a ficar pronto para inaugurao. As outras alas seriam concludas a seguir. A piscina interna parecia ser a mudana mais significativa, junto com muitos banheiros adicionais e uma troca geral do mobilirio.
Raquel focalizou o rosto agradvel da arquiteta, chamada Yvette. Ela sorria para Jean-Luc, os olhos brilhantes e tentadores, e ele correspondia, trocando algumas frases em francs. O que estariam dizendo?
Ele estava sendo mais charmoso do que o necessrio com Yvette, flertando com ela propositadamente na frente de Raquel. Talvez fosse uma pequena vingana pelo beijo de Sean que presenciara. Como que confirmando suas suposies, Jean-Luc beijou Yvette na face antes de despedir-se. Talvez houvesse algo mais entre eles, pensou Raquel.
Jean-Luc no era tolo, Percebeu-se agindo como um idiota, sentindo mais do que nunca a dor da rejeio por parte de Raquel.
	Logo voltaremos a falar  Jean-Luc dirigiu-se  arquiteta, para depois tomar Raquel suavemente pelo brao, revelando uma surpreendente hesitao.
	Estou viajando para a Frana esta noite, Raquel. Aqui est o nmero de meu telefone celular.  Passou-lhe um carto escrito  mo.  Por favor, ligue-me se houver algum problema que voc queira discutir.
	Duvido que apaream problemas  a voz dela soou fraca.
 Voc deixou tudo bem planejado.
	Seria bom chamar logo os decoradores para a casa de hspedes  ele retrucou, ignorando a observao de Raquel.  Assim voc poder mudar-se para l antes que comece o caos.
	Caos?  Ela franziu a testa.
	Perdo. No o caos, mas o desconforto natural de uma reforma.  Ele fez uma pausa para medir a reao dela.  No estou feliz em deix-la aqui sozinha.
	Ficarei bem.  Raquel estranhou a inesperada compaixo de Jean-Luc.  No se preocupe.
	Estou pensando em sua segurana  ele detalhou.  H muitos objetos valiosos aqui na casa. Fique atenta. E em caso de necessidade, pode me chamar imediatamente.
Raquel teve de reconhecer que no havia pensado naquele aspecto da reforma, embora assaltos por ali fossem raridade. Esperou at Jean-Luc entrar no carro e partir. Pouco depois, a arquiteta o seguia, acenando para ela as mos pequenas e bem-feitas. Ficou sozinha, pensativa, parada sobre a trilha de cascalho.
Em duas semanas, a casa de hspedes tinha aparncia muito melhor. Era surpreendente como uma dupla de hbeis decoradores e uma boa pintura pudessem tornar o lugar to mais agradvel.
Raquel terminou de limpar a janela da cozinha e olhou em volta. At Naomi aprovaria a limpeza da casa. As novas mesas de vidro e os velhos azulejos brilhavam. E agora, com o carpete de cor suave instalado na sala e no quarto, o lugar revelara-se extremamente aconchegante. Resolveu encomendar algumas cadeiras de jardim com guarda-sol, antes que a reforma mais pesada comeasse.
Pegou sua bicicleta e foi fazer uma inspeo geral na granja. Parou na manso, ao lado da cozinha, e abriu a porta dos fundos.
Conforme previsto, Naomi tinha partido naquela manh, para visitar parentes na Esccia. Relutara muito em deixar Raquel sozinha, mas como nunca havia viajado enquanto tia Clara era viva, no foi muito difcil convenc-la a viajar sem se sentir infeliz.
Est bem, mas pedi a Sean para ficar a sua disposio disse a mulher ao despedir-se.
Naomi!  repreendeu-a Raquel desgostosa, mas desarmada ante a boa vontade da velha senhora.
Ela almejava como nunca ficar sozinha e ter algum tempo para si mesma, antes que chegasse o batalho de pedreiros e mestres-de-obras. Queria descansar a mente, sem ningum por perto para distra-la. Ansiava por paz e silncio.
Com o corao sobressaltado, Raquel descobriu que havia algum na cozinha, sentado  mesa. Era Sean.
	Como veio parar aqui?  ela perguntou aborrecida.
	No sou bem-vindo? Queria muito vir v-la. No precisa ficar brava com Naomi.
	Sean, estou muito cansada.  Passou a mo pela testa.
	Prometo no me zangar com Naomi, mas quero ficar sozinha. Por favor, v embora.
Isso no  maneira de tratar uma visita  ele refutou.
	Naomi me deu a chave da casa e" s quero falar um pouco com voc.
	No tenho nada a dizer  Raquel demonstrava toda sua irritao.  E voc no  uma visita. Quando o convidei?
	Naomi convidou-me.
	Oua, Sean. Estou cansada de repetir sempre as mesmas coisas. Por que no faz o que peo?
 to terrvel assim o fato de eu querer v-la?
O telefone tocou no corredor naquele momento.
Voc no pode me dispensar assim.  Sean cruzou a cozinha e aproximou-se dela.  No vou deix-la fazer isso.
	Raquel sentiu um hlito de bebida alcolica vindo de Sean e, pela primeira vez, teve medo dele.
Faa o que  mais sensato, Sean.  Ela esforou-se para sorrir amavelmente.  Voc  um bom rapaz e gosto de voc, mas est levando isso muito a srio. Tivemos bons momentos juntos, mas agora eles acabaram.
	Talvez para voc.  Ele balanou a cabea e curvou a boca em um gesto de desagrado.  Nunca me senti rejeitado antes.
	Que tal eu atender o telefone? Pode ser algo importante  Raquel contemporizou, dando um passo para o lado.
Foi um alvio deixar a cozinha. A presena de Sean a incomodava, mas ela sempre dominara a situao. Agora, quase embriagado, as coisas se tornavam imprevisveis.
Raquel, como vai?  Ela ouviu logo que atendeu o telefone.
Embora vacilante, ela ficou mais satisfeita do que gostaria de admitir ao escutar Jean-Luc do outro lado da linha.
Tudo bem. Sem problemas.
Raquel ouviu barulho na cozinha. A queda de um copo. Estaria Sean procurando bebida nos armrios?
	Voc est nervosa?  indagou Jean-Luc.  Que barulho foi esse? H algum a com voc?
	 Sean  ela admitiu pouco  vontade.
	Sean!  No era difcil vislumbrar a desaprovao de Jean-Luc.  Compreendo.
	No, voc no compreende!  Raquel retrucou rispidamente. Detestava envolver Jean-Luc em um assunto que no lhe dizia respeito, mas estava receosa pelo estado de Sean e sua atitude agressiva.  Foi Naomi que o convidou, no eu.
	Ento diga-lhe para ir embora.
	Sim,  o que vou fazer.
	Ele a est... aborrecendo?
	No, mas est bbado. Mas esquea que eu mencionei Sean. Est tudo bem.
	Oua, estou em Londres. Vou at a.
No, Jean-Luc! No  preciso...  A linha caiu.
Jean-Luc ficou contente por ter estar na Inglaterra. Apavorou-se com a ideia de no poder socorrer Raquel. Apesar da situao inesperada, o que ele queria de fato era rev-la, ficar ao lado dela. Pisou no acelerador, pensando na lio que poderia dar ao intruso.
	Sean, voc precisa ir.  Raquel pegou o palet, casualmente jogado em uma cadeira, e o estendeu para ele. Alguns pratos quebrados se espalhavam pelo cho.  O que aconteceu?
	Fui pegar um copo para tomar gua, e os pratos caram.
	Por favor, v!  Ela abaixou-se para recolher os cacos maiores.  Voc bebeu e est fora de si.
	Voc no me engana. Est esperando algum. Aquele francs arrogante, no ?  Ele aproximou-se.  Como posso esquecer o dia que passamos no festival de artes? E o fim de semana na praia?
	No estou lhe pedindo para esquecer, Sean. Devemos sempre nos lembrar dos bons momentos que vivemos na vida, mas no estamos namorando mais.
	Voc  uma bela mulher, Raquel.  Ele estendeu o brao e tocou-lhe a face.  Um beijo, quero apenas um beijo de despedida.
	Voc bebeu, Sean. Jean-Luc deve estar chegando para tratar de negcios. No quero que ele o encontre aqui.  Ela olhou para a porta da cozinha, imaginando uma rota de fuga.
	Ah, para ele voc tem tempo?  Olhou-a com raiva.  O que ele tem que eu no tenho? Vi como voc olhava para ele.  Sean ergueu as mos e segurou a cabea entre elas, olhando para baixo.  Cristo! Estou fazendo o papel de idiota!
	Voc acertou!  a voz vinda da porta era fria como ao.
Raquel olhou com surpresa e alvio, satisfeita por Jean-Luc ter chegado to depressa.
Ela caminhou para o lado dele, controlando-se para no abra-lo.
	Raquel, voc pediu que esse homem se retirasse?  Diante da confirmao dela, Jean-Luc colocou-se ameaadoramente  frente de Sean.  Sugiro que faa o que ela pediu. J.
	Seno...  desafiou Sean.  Ameaas? Violncia? No acredito que um almofadinha como voc queira sujar esse terno to caro.
Pode acreditar  disse Jean-Luc sem perder a calma.
A expresso dele se endureceu, mas s ficou absolutamente transfigurada quando Sean passou o brao em torno do ombro de Raquel e tentou pux-la para si.
	S quero um beijo  disse, enrolando a lngua.  Um beijo de namorados.
	Tire as mos dela!  comandou Jean-Luc.
	Quem  voc para me dar ordens?  Sean deu um passo  frente, o dedo em riste.
Raquel aproveitou a chance para livrar-se e afastou-se de Sean.
Jean-Luc acertou um murro no queixo de Sean, que caiu para trs, batendo as costas na mesa. Recomps-se lentamente e avanou para o adversrio, cambaleante.
Um segundo soco, ainda mais forte, derrubou-o no cho.
Parem!  gritou Raquel horrorizada, vendo que um filete de sangue escorria do canto da boca de Sean.  Parem!
Jean-Luc agachou-se sobre Sean e agarrou-lhe a cabea, pronta para bat-la contra o piso duro da cozinha.
	Nunca mais, entendeu? Nunca mais aparea por aqui, ou as consequncias sero piores. Deixe Raquel em paz.  Curiosamente, o sotaque francs de Jean-Luc era acentuado naquela situao extrema.  Agora v.
Ele levantou-se e ainda ajudou Sean a erguer-se. Raquel, trmula de nervosismo, apressou-se e abriu a porta da cozinha, tinha o palet do visitante nas mos.
Sean segurou sua roupa e saiu calado, tranando as pernas.
Jean-Luc acercou-se de Raquel, e ambos ficaram olhando Sean afastar-se. Queriam ter certeza de que ele no faria meia-volta e tentaria, fora de seu melhor juzo, tirar satisfaes.
	Conheo o tipo. Ele no vir incomod-la mais.
Raquel ouviu Jean-Luc falar, mas recusou-se a fitar seu rosto. No conseguia crer no que tinha visto. Sentou-se em uma cadeira e cobriu a face com ambas as mos.
	Como pde bater nele? Sean ficou ferido.
	Gosta de ser assediada ou aterrorizada?
	No. Mas ele apenas bebeu demais. No sabia o que estava dizendo ou fazendo.
	Ora, Raquel, sabia muito bem.
	No havia motivo para violncia.  Ela balanou a cabea em um gesto inconformado.
	Quando as palavras no resolvem...  Ele afastou-lhe as mos do rosto e fixou seus olhos profundamente.  S quis proteger voc. O que h de errado nisso?
Como seria bom conseguir esquecer o passado, a crueldade de sua partida to repentina. Como seria bom acreditar que Jean-Luc dizia a verdade e que realmente se preocupava com ela.
Seus olhos se estreitaram, e a boca se curvou, em uma expresso prxima do repdio. Recusava-se a acreditar em Jean-Luc. As feridas abertas de seu corao a impediam de confiar nele novamente.
	No pedi sua proteo ou ajuda  ela disse com a voz trmula.  Voc no mudou, Jean-Luc.  O tremor invadiu seu corpo inteiro.  Ainda  o mesmo homem impulsivo e arrogante que conheci.
Viu-lhe as feies alteradas e soube que havia tocado em um ponto sensvel. S descobriu com que intensidade o fizera quando Jean-Luc murmurou algo em francs e apertou-lhe os ombros com as mos, baixando o rosto  altura de sua boca.
O beijo foi uma recordao cruel dos tempos em que se amavam ardentemente. Raquel no havia esquecido nem por um momento a sensualidade daqueles lbios, a fora instigante daquele corpo. O que ela esquecera, ou fingira esquecer, fora o apelo de seu prprio desejo, a inabilidade em fazer a razo prevalecer sobre o instinto.
E o beijo de Jean-Luc certamente no convidava  indiferena. Sua boca era exigente e ele tomou os lbios dela com sofreguido, at conseguir entreabri-los. Ento, explorou com a lngua a caverna de mistrios e delcias, depois voltou a sugar-lhe os lbios em um paroxismo da vontade.
Raquel reagiu, apesar das lembranas dolorosas ou talvez por causa delas. Colou sua boca  dele com intensidade, abraando-o pela nuca, amando e odiando Jean-Luc ao mesmo tempo.
As mos fortes tiraram Raquel da cadeira de modo que ela ficasse de joelhos, como uma devota diante de um altar. Jean-Luc agachou-se e apertou-a contra si, aprisionando-a, fazendo-a sentir o vigor de seu corpo musculoso. Beijou-a ainda mais apaixonadamente, at que, depois de segundos que pareceram eternos, ele quebrou o doce elo.
A fora de seu desejo o tomara de surpresa. A raiva o havia cegado e induzido, embora soubesse no ntimo de si mesmo, que era apenas uma desculpa. Sentira a paixo crescente no corpo trmulo de Raquel, em unssono com o seu, e o beijo se transformara em uma batalha entre dio e desejo para ambos. Ele percebeu-lhe o choque e a surpresa no olhar. Talvez tudo fosse somente reflexo de seus prprios sentimentos...
Raquel imediatamente percebeu o erro que cometera. Olhou para Jean-Luc e julgou que ele no fora afetado pelo encontro. O nico vestgio de paixo parecia ser a respirao ofegante e o olhar sombrio. No havia nele sinal de tristeza pelos anos que passaram separados.
	V  ela pediu com voz baixa mas contrafeita.  Voc continua ousado e inconveniente.
	Raquel...
O olhar dela revelava toda a frustrao e o dio que sentia.
	Ouviu o que eu disse. Quero que v embora.  Ela ps-se de p e sentiu as pernas trmulas.
	Pense o que quiser, no planejei nada disso  ele justificou-se.
	E acha por acaso que isso me faz sentir-me melhor?  Controlou-se para no gritar de raiva.  Parece to fcil para voc. Salvar a granja e, como compensao, possuir a dona. No sou mais a adolescente ingnua que voc conheceu e abandonou.
	Voc nunca foi ingnua, e eu nunca quis me aproveitar de nada.
	O que est dizendo combina bem com sua aparncia amvel. Mas eu fui, sim, terrivelmente ingnua.
	S nas relaes com sua tia Clara  emendou Jean-Luc em tom seguro.
	V e me deixe em paz. Gostaria de no v-lo nunca mais.
	Infelizmente, no ser possvel. Temos negcios em comum.  A expresso rgida destacava-lhe o olhar sombrio.  Meu empenho vai ser ainda maior depois deste episdio.
	Episdio?  Ela deu uma risada triste.  Foi uma violncia.
	Quando? Como?  Jean-Luc pareceu sinceramente perplexo.  E muito fcil fazer-se de injuriada, Raquel. Eu beijei voc, mas no me lembro de ter ouvido grito algum, pedindo para solt-la.  Ele esboou um sorriso provocante.  Muito pelo contrrio...
 Ainda no entendo como um dia pude estar apaixonada por voc  a voz de Raquel era quase um sussurro. Os olhos lacrimejaram.  Como aconteceu?
	Cometemos um engano  ele tentou explicar.
Raquel viu Jean-Luc sair pela porta. A determinao que caracterizava todas suas aes era preocupante.
Mas a reao dela apenas servira para tornar as coisas bem piores.

CAPITULO V

Quase trs meses se passaram sem que Raquel e Jean-Luc se vissem. Escovando as mechas douradas de seTfs cabelos, Raquel podia ver pela janela os jardineiros plantarem os ltimos tufos de grama. O contato entre ela e Jean-Luc, nos ltimos meses, fora feito exclusivamente por telefone e fax.
O vero tinha sido seco e excepcionalmente quente. O trabalho na granja, porm, prosseguira sem parar. O empreiteiro das obras era bastante responsvel quanto a prazos, e at procurava adiantar o servio, visando a uma boa gratificao.
Raquel colocou a escova na penteadeira e vestiu uma camiseta folgada. Em dois dias, haveria a inaugurao oficial do hotel de lazer.
Seria inevitvel encontrar-se frente a frente com Jean-Luc.
Voc nem tocou em seu conhaque.
Jean-Luc olhou sobre a mesa ornada de velas acesas. Yvette, a arquiteta, estava estonteante em um vestido preto, ousadamente decotado. Ele sorriu e ergueu seu copo, consciente de no ter contribudo muito para animar a conversa, como seria de esperar, j que fora o autor do convite para aquele jantar.
	Pensei que talvez...  Os olhos dela brilharam, seu sorriso era pleno de possibilidades.  Caf em meu apartamento?  ela murmurou.  Ou no seu?
Era um oferecimento que poucos homens recusariam. Jean-Luc no pde negar seu desejo. O celibato no combinava com ele, embora no tivesse feito ultimamente nenhuma tentativa sria para acabar com a solido.
Tinha passado o abrasador e interminvel vero em Paris, trabalhando dia e noite, mergulhado nos negcios. Sara com Yvette pois a achara encantadora, divertida e inteligente. Por que no passar uma noite com ela?
	Yvette...  ele comeou.
Ela levantou a mo para interromp-lo.
	Esquea. J percebi que no est interessado  disse com um sorriso breve mas frio.  No vou implorar.
	Nem eu esperaria isso de voc.  O olhar de Jean-Luc foi vacilante.  Voc  uma mulher extremamente desejvel. Em outras circunstncias... Desculpe-me, no tenho sido uma boa companhia.
	H problemas demais na cabea,  s isso.  Yvette disfarou a frustrao.  E como vo as coisas na Inglaterra?
	Ela mostrava-se uma mulher compreensiva.
	A reforma est praticamente terminada  ele respondeu. 	Devo viajar amanh para checar tudo.
	Desejo-lhe boa viagem  replicou Yvette, levantando-se da mesa.  Ela  uma mulher muito bonita. Espero que tudo d certo entre vocs. Mas, se no der...  Ela sorriu maliciosamente.
	Perdo. Eu disse que no ia implorar. Voc causa uma forte impresso nas mulheres, Jean-Luc, e sabe disso muito bem.
	Nem todas as mulheres  ele murmurou com a expresso sria, vendo Yvette afastar-se com um balano provocativo do corpo.  Nem todas...
	Ento, sobreviveu ao caos?
Raquel voltou-se rapidamente na direo da voz de Jean-Luc. Mesmo a distncia, a presena dele a afetava. Com o corpo inclinado, ela inspecionava os bonitos arbustos s margens do caminho pavimentado que levava  nova quadra de tnis.
	Esperava v-lo somente amanh  ela comentou, notando o cansao nos olhos dele  medida que se aproximou.  Devia ter-me avisado de que chegaria um dia antes.
	Para qu?  Ele vestia terno e estava com as mos nos bolsos da cala.  A menos que tenha causado alguma inconvenincia.
	No, embora essa ideia no seja totalmente descartada. 	a voz de Raquel soou fria e rspida.
Ela notou que ele havia desabotoado o colarinho e soltado a gravata. Sem querer, fixou o olhar nos pequenos anis de plos pretos que se insinuavam no alto do peito. O suor na testa indicava o calor que Jean-Luc passara na viagem desde a cidade.
	Os quartos esto prontos?  ele quis saber.
	Sim. Surpreso?  Raquel sentiu-se aborrecida com o descrdito dele.  Achava que eu no conseguiria manter o prazo?
	S perguntei porque no quero mais dormir na cidade, s isso.  Passou a mo pela testa e depois olhou os arredores.
 Otimo lugar para passar os veres quentes. A granja ficou extremamente elegante.  Reparou no teto novo e nas paredes com tinta fresca.  A reforma foi muito bem-feita, no acha?
	Sim, ficou melhor do que eu esperava.
	Voc no parece entusiasmada  ele comentou.  Reconhece que o resultado est longe da monstruosidade que voc imaginava? Alis, a pavimentao das trilhas ficou tima.
Raquel deu um longo suspiro. Em sua mente, ela vislumbrava a antiga manso onde se encontrava s escondidas com Jean-Luc, ento um pobre mas feliz estudante universitrio.
Arriscou um olhar para a expresso dura de Jean-Luc. Anos atrs, a vida para eles era feita de risos, ebulio e xtase.
Examinou a nova manso de sua famlia, que em poucas horas se tornaria um hotel.
	Tudo bem, Jean-Luc  ela murmurou por fim.  Se voc gosta...
	Por favor, Raquel!  ele exasperou-se.  Por que no esquece seu orgulho e admite que tudo est melhor do que podamos desejar? Eu a deixei em paz, como pediu, e no interferi em nada.
	S quero lhe dizer...  ela murmurou com hesitao  ...que pretendo sair desta sociedade na primeira oportunidade. Mesmo que isso signifique algum prejuzo financeiro.
	Bem, como essa oportunidade no existe no momento  ele replicou , no acho que valha a pena perder tempo discutindo o assunto.
Um tenso silncio imps-se entre eles. O canto dos pssaros nas rvores prximas fez-se ouvir, alto e encantador.
	Se j acabou de me questionar  disse Raquel , pretendo ir at a quadra de tnis.
Os olhos de Jean-Luc apreciaram as pernas bronzeadas de Raquel, vestida com uma curta saia pregueada.
	Podemos jogar juntos  props ele.  Costumava ser um bom tenista. E voc, manteve seu padro?
	Acho que melhorei um pouco  respondeu Raquel com frieza, recusando-se a parecer modesta.  Tenho praticado bastante.
Sem responder, Jean-Luc acercou-se dela e tirou a moderna raquete de fibra de carbono de suas mos.
	Bom material  ele comentou.  Parecido com o que eu trouxe no carro.
Passaram-se alguns segundos at que ela assimilasse suas intenes.
	Com certeza no est pensando em jogar agora, depois de uma exaustiva viagem desde Paris.  A companhia dele a perturbava.  Por que no experimenta a piscina interna? E espetacular. E bem relaxante.
A boca bem cinzelada de Jean-Luc curvou-se com bom humor.
	Fazendo propaganda do lugar para mim, Raquel? Mais tarde aceitarei a sugesto de nadar. No momento, no vejo melhor maneira de relaxar do que jogar uma partida de tnis com voc.
	Est quente demais. No pretendia...
	Com medo de me enfrentar na quadra?  O olhar dele era desafiador.
	Parece que voc no me conhece, Jean-Luc.  Ela o encarou com altivez, mas aquela era a resposta que ele queria, naturalmente.
	Bom. D-me cinco minutos.  Ele voltou-se e seguiu a trilha para o estacionamento.  Por que no considera isso como parte do negcio? Assim poder apagar de seu rosto essa expresso desanimada.
A observao de Jean-Luc irritou Raquel. Meditou um pouco enquanto esperava e decidiu seguir seu instinto de autopre-servao. Desistiu do jogo, quando Jean-Luc apareceu vestindo calo e camiseta brancos que realavam sua bela musculatura.
	Melhor de trs?
	No sei se terei tempo para o jogo inteiro  avisou Raquel.  Podemos apenas bater bola.
	Est com medo de perder  ele sentenciou infantilmente, enquanto apanhava duas bolas de tnis de dentro de um tubo e depois caminhava em sua direo.  Voc realmente era boa nisso.
	Ainda sou  contestou Raquel, sentindo que a raiva lhe acelerava o sangue nas veias.  Vou-lhe mostrar.
A obsesso de vencer a fez perder muitos lances que normalmente acertaria. Jean-Luc, por sua vez, no poupou Raquel. Seus fortes ataques a fizeram correr de um canto a outro da quadra sem parar. No fim do primeiro set ela estava exausta.
	Vamos parar  ela pediu.  Voc est gostando, no?
	Claro,  bom vencer.  Tomou um gole de gua mineral na prpria garrafa e ofereceu outro a Raquel.
	Queria um adversrio que cedesse um pouco. No estamos em Wimbledon.
	Ah, pensou que eu a deixaria ganhar?  A ideia no lhe tinha ocorrido.
	Basta ir mais devagar. Est muito quente e meus calados so novos.
	Desculpas?  Ele parecia divertir-se com a situao.  No est em um bom dia, Raquel. Antes, voc costumava me derrotar sistematicamente.
	Eu o ensinei a jogar!  ela disse bruscamente, mal aceitando que ele no se lembrasse disso.  Era inverno e fomos ao clube. Obviamente voc vem praticando desde aquela poca.
	Talvez  ele anuiu, enxugando na manga da camiseta o suor da testa.  Seu saque est muito curto.
	Obrigada por me orientar.  Ela olhava fascinada para as gotas que umedeciam o pescoo de Jean-Luc.  Conheo perfeitamente minhas falhas, mas hoje no vou fazer nada para corrigi-las.
	Ento no se importa em perder o jogo?  Ele balanou a cabea.  Voc tem uma determinao de ao, Raquel. Lutou muito em cada ponto.
	E voc joga para anular o adversrio. Estou perdendo meu tempo.
	Puro instinto. Quero que me observe.
	O qu?  Raquel passou a lngua pelos lbios secos. No estava disposta a ter aulas de tnis naquela tarde, mas no houve tempo para reclamar.
Jean-Luc tirou-lhe a raquete das mos e a empunhou a sua maneira, impulsionando uma bola imaginria.
	Seu problema  a pegada. Est baixa demais. E com isso voc gira mal o corpo. Deixe-me mostrar.
Ele envolveu-lhe o pulso com os dedos compridos e posicionou-o no cabo da raquete, com gentil insistncia. A mo de Raquel ficou a uma distncia menor da base e ela sentiu que a pegada ficava realmente mais firme.
	D um saque para eu ver  pediu Jean-Luc, passando-lhe a bola.  Fique mais de lado. Assim.  Demonstrou o que queria, encostando e tocando em seu corpo.
Raquel quase perdeu a respirao, embora estivesse realmente concentrada nas instrues. Mudou de posio, conforme ele pedira, e realizou a jogada.
	No est melhor? Mais natural?  inquiriu Jean-Luc.
Tendo-o to perto de si, sentindo o calor de seu corpo suado, dificilmente Raquel poderia pensar no jogo, por mais informal que ele fosse.
Raquel no pde mais suportar. Finalmente encontrou fora para afastar-se de Jean-Luc. Mas, com uma casualidade que escondia arrogncia, ele levou a mo esquerda aos quadris dela, para cobrir-lhe os dedos que seguravam uma bola. A mo direita a enlaava pela cintura, e aqueles movimentos, malcia  parte, deixaram-na prisioneira dele.
	No precisa me ajudar no saque!  ela exclamou firmemente.  No quero ajuda em nada!  A respirao ofegante de Raquel revelava mais do que suas palavras.  Vamos parar.
	E se eu no quiser?  Ele manteve sua voluptuosa proximidade.
	O qu?  Raquel fechou os olhos, ofendida, mas contente por Jean-Luc no poder ver-lhe o rosto.
	No vou solt-la  ele avisou, seguro de si. Ao contrrio, aproximou o rosto de seus cabelos.  Cheiram bem como sempre.
 Baixou a cabea e fez Raquel estremecer quando correu os lbios pela curva suave de seu pescoo. Usou a lngua para acariciar-lhe o lbulo da orelha, e ela hesitou entre afast-lo com um empurro ou abrir os braos para receber mais intensamente os afagos que prenunciavam um conhecido mundo de prazeres.
	Chega!  ela balbuciou com dificuldade.  No  justo!
	Justo?  a voz dele saiu aguda, surpresa.  O que tem a ver?
	Voc s est alimentando seu detestvel ego  comentou Raquel aps controlar suas sensaes.  Precisa sempre provar alguma coisa. Que pode me vencer no tnis. Que sabe me excitar...
	E por que eu iria fazer isso? Ainda mais com voc?  Jean-Luc soltou-a e manteve-se calmo.  Temos uma histria passada, Raquel, e ela nos incomoda. Mas aprendi a ler o bvio em seu rosto.
	O bvio?  Ela no se preocupou em esconder o dio em seus olhos.  Que no posso v-lo sem me lembrar da paixo que nos uniu? Sou uma mulher adulta agora, que voc no pode manipular como antes. No vou repetir o erro. Seu envolvimento em minha vida acabou.
	Nunca esperava ouvir isso. Voc est sendo cruel.
	Crueldade  especialidade sua, Jean-Luc.
	Ah, ? No salvei a granja da falncia? E o que me diz de voc e sua tia, to bondosas e refinadas, sempre me lembrando de minha posio inferior?
	No sei do que est falando.
	Tambm tenho coisas para esquecer, Raquel. Percebe agora?
Olharam-se com mtua condescendncia, e Jean-Luc, em um impulso explosivo, aproximou-se de um s passo e colheu os lbios dela em um beijo violento, do qual Raquel no poderia escapar nem se quisesse.
Mas ela no quis. Foi um tumulto de paixo que os elevou acima da realidade. Presa em um vigoroso abrao, Raquel por fim cedeu ao prazer daquele momento.
Ela tentou resistir  arrebatadora intensidade do beijo de Jean-Luc, mas era impossvel no extasiar-se com as fortes e atormentadas mos que lhe afagavam o corpo, com os msculos que faziam sentir todo seu vigor, com a renitente sensualidade daquela boca que a sugava com maestria.
Houve um tempo em que Jean-Luc era tudo para ela. Nunca esquecera a sensao de ser tocada por ele, de forma terna, doce e apaixonada. E tudo isso se perdera com os anos de separao. Parecia ter restado apenas a compulso irrefrevel, o domnio dos instintos sobre dois seres que no pretendiam mais ficar juntos. 
Um gemido formou-se na garganta de Raquel, e ela no conseguiu reprimi-lo. Jean-Luc levantou a cabea e examinou-lhe a face. Impossvel adivinhar os pensamentos dele, e Raquel nem mesmo tentou, mas testemunhou a mudana em seus traos: havia um misto de prazer, desgosto e remorso. Aonde aquela atrao os levaria?
Ele no a soltou imediatamente. Raquel estremeceu quando Jean-Luc correu a mo pelo rosto dela, suavemente, em um toque de extremo deleite.
	Perdoe-me.
As palavras soaram to serenas que ela imaginou estar sonhando. Ento, uma enorme frieza voltou aos olhos dele, e o momento de ternura passou.
	Pensei que ainda amava voc  ele disse em um tom sinistro.  Tolice minha.

CAPITULO VI

Raquel viu-se deitada languidamente, as mos ensuais de Jean-Luc lhe acariciavam a pele quente com lenta volpia. Ela agarrou-se a seu corpo, consciente de sua nudez viril, sentindo o desejo crescer dentro dela. Ele sorriu de prazer, abaixando a cabea para beij-la com ardente paixo. O quarto era claro, banhado de sol, e os lenis, brancos e macios.
	Eu a amo muito  ele disse, fitando-a diretamente nos olhos.  Nunca mais vamos nos separar.
	Tia Clara agora gosta de voc.  Raquel soergueu-se para tocar-lhe o rosto bonito.  Voc tem dinheiro,  um homem rico. Como ns. Podemos formar uma bela famlia.
	E quanto a Sean?  ponderou Jean-Luc.  Ele  meu irmo. Precisa de mim.
O sonho foi to marcante que Raquel acordou assustada. Estava escuro. No havia lenis brancos, nem Jean-Luc estava ali. Ela respirou profundamente.
O calor sufocava. Apesar da janela aberta, no soprava brisa alguma. Raquel consultou o relgio da mesinha-de-cabeceira. Passava um pouco da meia-noite. J era o dia da grande abertura do hotel.
Ela levantou-se e caminhou at a janela. A lua brilhava no cu de veludo negro. Os contornos do pomar e dos novos jardins eram visveis. Mais ao longe, vislumbrava-se a quadra de tnis e a impressionante fachada da manso.
Inalou o ar fresco e procurou acalmar-se, mas concluiu que seria impossvel dormir. Despiu a camisola e pensou em um banho de chuveiro. Ento, teve outra ideia, uma maneira infinitamente melhor de livrar-se do calor e da tenso.
Raquel retirou do guarda-roupa suas roupas de banho e dirigiu-se resoluta para a manso.
A piscina interna tinha sido meticulosamente construda em uma rea com p-direito alto, com enormes vitrais coloridos e uma clarabia na cpula arredondada. Raquel abriu a porta com sua chave mestra e fechou-a silenciosamente atrs de si. Tirou as sandlias enquanto caminhava para a ala dos vestirios, sentindo o frio do piso de cermica sob os ps, ansiosa por mergulhar naquela gua refrescante. Colocou sua toalha em um dos bancos de azulejos e tirou o robe, revelando um bem cortado maio azul. Prendeu os cabelos e preparou-se para pular na gua, quando descobriu que no tinha sido a nica a ter a ideia de um banho  meia-noite.
Jean-Luc surgiu  frente dela, o tronco imerso, os braos apoiados na beirada, salpicados de gotas brilhantes. Afastou os cabelos molhados do rosto antes de cham-la.
	Raquel!  Esboou um sorriso vago.
Colhida de surpresa, ela fitou Jean-Luc com espanto.
	No consegui dormir.
	No? Nem eu. Mas tambm no tentei. Acabei de rever uns documentos, e me pareceu uma boa ideia vir para a piscina.
	Talvez voc queira nadar sozinho  ela comentou, fazendo meia-volta, incerta de como se comportar. Ali na gua, Jean-Luc estava assombrosamente atraente. Pensou em seu sonho, sentiu desejo no mago de seu ser e fez meno de retirar-se.  Volto depois.
	No h necessidade disso.  Ergueu-se para a beira da piscina, respingando gua.   loucura, Raquel. No podemos continuar nos evitando pelo resto da vida.  Aparentava calma e relaxamento, como o Jean-Luc de antigamente.  Cabem dois aqui, no acha?
	Sim, suponho que tenha razo  ela murmurou, ainda insegura.
	Ento pule na piscina. Este lugar  mais seu do que meu.
Raquel tinha muita vontade de sentir a gua fria refrescando-lhe o corpo e apaziguando sua alma. Mas Jean-Luc no devia fazer ideia de quanto a presena dele era perturbadora. As emoes conflitantes a fizeram demorar um longo momento antes de finalmente mergulhar.
Era bom estar ali, e Raquel emergiu pouco depois, esticou o corpo e concentrou-se em nadar em um ritmo suave e constante, com braadas elegantes e firmes. Chegou ao outro lado da piscina e deu impulso com os ps para voltar, como uma profissional. No meio da raia, girou o corpo e boiou longamente, contemplando a noite pela clarabia.
	No sabia que nadava to bem  o tom de Jean-Luc era de legtima admirao. Ele se limitava a banhar o corpo, fazendo poucos movimentos.  Quando quiser, precisamos conversar.  Nadou at a beirada, onde sentou-se e ficou observando Raquel.
No meio da piscina, ela ficou de bruos e executou um gracioso nado de peito, at chegar onde ele estava. Sentou-se tambm, batendo os ps na gua.
	Esta tarde  ele falou calmamente , eu no quis ma go-la. Quero que me veja como um bom amigo.
	Nada mais que um bom amigo?  Os olhos dela refletiam a cintilao da gua, e seu corao batia apressado.
	Sim. Embora eu ainda pense em tudo o que nos uniu.
Ofegante, Raquel no soube definir se isso se devia ao esforo fsico ou  maneira como Jean-Luc olhava para ela. Nada respondeu.
	Voc parece surpresa.	r
	No pode culpar-me.
	Pensei que a granja significasse muito para voc.
	E significa. Voc sabe muito bem.  Colocou a mo sobre a dele e os dedos se cruzaram, em um gesto antes de tudo amistoso.  Foi bom termos conservado a propriedade. Mas prefiro no v-lo por aqui.
	Deixei-a sozinha por todo o vero. Achei que nosso relacionamento seria diferente em minha volta.
	O que aconteceu essa tarde mostrou que no  possvel.  A voz de Raquel mostrava tenso.  Antes, jamais voc seria... cruel.
	Beijar voc foi crueldade?  Ele manteve-se calmo.  No acredito.
	Voc foi egosta e desrespeitoso. No se importou com meus sentimentos.
Talvez ela quisesse de volta o velho Jean-Luc. Jovem, amvel e apaixonado. Mas todos os momentos maravilhosos que haviam partilhado tinham sido sepultados para sempre quando ele foi-se embora.
"No pense", ela ordenou a si mesma. "No lembre." Jogou-se na gua com braadas fortes, para aliviar o peso das recordaes.
Jean-Luc a observava e sentiu-se rejeitado. Tambm no queria mais ficar ali. Para que aguardar a inaugurao? Se era indesejado por Raquel, melhor partir. Voltar para Paris e para o charme acolhedor de Yvette.
Raquel cruzava o meio da piscina quando sentiu uma fisgada na perna. Atingida pela sbita contrao muscular, dobrou a perna e deixou-se submergir, voltando  tona apenas para respirar.
	Raquel?  Jean-Luc notou que havia algo errado com ela e jogou-se na piscina para socorr-la.
Em poucos segundos, ela sentiu as mos dele levantando seu corpo para a superfcie da gua. Seu olhar era de pnico e agonia.
	Cibra...  ela conseguiu dizer.  Na perna esquerda.
Ele conduziu-a com esforo at a beirada, onde a deitou sobre o frio piso de cermica e comeou a massagear-lhe a perna. Vendo-se em segurana, Raquel no se conteve mais.
	Ai! Di muito!  queixou-se com uma careta. Gritou quando mais um espasmo a colheu de surpresa.  Ai!
	Calma.  Jean-Luc acelerou os movimentos da mo, correndo-a do p  coxa de Raquel, apertando o msculo dolorido sob seus dedos fortes.  Est melhorando?  ele perguntou com o olhar fixo no rosto dela, esperando por uma reao.
Raquel soltou um suspiro triste, que ajudou a superar a fase mais aguda da dor.
	Sim, acho que sim...
	Tem certeza?  Um sorriso curvou os cantos da boca de Jean-Luc, mas a cibra causou mais um leve espasmo, levando Raquel a dar um involuntrio grito de dor.
Sem dizer palavra, Jean-Luc a tomou no colo e a carregou para a elegante rea de repouso onde se enfileiravam diversas cadeiras longas de piscina. Acomodou-a em uma delas e sentou-se na beirada.
	Aqui  mais confortvel  disse ele.
Raquel fechou os olhos e procurou relaxar. Era muito bom sentir-se cuidada por Jean-Luc. Melhor ainda agora que ele retomara a massagem, enquanto o p dela se apoiava na rija musculatura de seu ventre.
	Nunca me aconteceu antes  ela murmurou quase sem flego.  J me sinto melhor. Obrigada.
	Ande um pouco. Eu a seguro.
Ambos se ergueram da cadeira, e ela deu alguns passos, ainda pouco firmes, pelo piso colorido.
	Sim, est muito melhor.
Contemplou Jean-Luc com gratido, notando o brilho de seus olhos, a bela estrutura de seu tronco, e de repente tomou conscincia de sua quase nudez com o maio molhado.
	Pode pegar minha toalha, por favor?
Ele fez o que ela pedia, mas em vez de entreg-la comeou ele mesmo a enxug-la, em uma mistura indefinvel de energia e suavidade. Os movimentos do tecido atoalhado sobre seus ombros, braos e pernas eram uma nova e gentil massagem. Ela deixou-se acariciar, fechando os olhos e sentindo-se envolvida por um arrepio de desejo que removia todos os vestgios de qualquer pensamento racional.
	Est melhor agora?  Jean-Luc notou a reao dela e dirigiu-lhe um olhar enigmtico.
Raquel meneou a cabea, concordando. No tinha mais controle sobre suas sensaes, sobre seu destino, quando ele a olhava assim.
	Agora devo entrar  avisou ela, tentando interromper a progresso de seus instintos.  Vou tentar dormir, finalmente.
	Eu a acompanho  disse Jean-Luc.
	No se incomode  a voz soou rouca.
	Acho que  preciso.  O sorriso dele foi gentil. Pegou sua prpria toalha.  D-me um minuto, est bem?
Ela deveria ter sado, enquanto Jean-Luc se trocava no vestirio. Mas no. Aguardou-o calada, enrolando sua toalha nos ombros.
Andaram at a antiga casa de hspedes em silncio. A noite era de muito calor. No cu nublado, a lua brilhava por segundos em cada nesga. De vez em quando, o som de troves lembrava o de tambores. Raquel olhou nervosa para o cu.
	A chuva vai ser rpida. No vai atrapalhar a festa  comentou Jean-Luc, conduzindo Raquel pelo brao.  Como est a perna?
	Melhor. Acha que tudo vai correr bem na inaugurao do hotel?
	Falei com alguns funcionrios. Todos elogiaram voc. Disseram que  muito eficiente e que organizou tudo com perfeio. Fico imaginando o trabalho que deve. Devo-lhe meus agradecimentos.
	Obrigada. Achei que voc nem viria... Por minha causa.
	Como assim? Por sua causa? Por que pensa que a odeio?
	No se trata de dio  disse Raquel com voz fraca.  De mgoa, de desprazer, talvez.
	No  verdade.  Ele levantou-lhe a mo e pressionou-a contra seus lbios.  No mesmo.
	Quero que o hotel seja um sucesso, apesar de tudo.
	Apesar de meu envolvimento, voc quer dizer.
	Se fosse outra pessoa, seria mais fcil.  Raquel teve a sbita compulso de ser totalmente honesta com Jean-Luc.
	Acha que tia Clara est se revirando no tmulo?  O sarcasmo dele escondia um trao de verdade.
Um rumor de tempestade soou acima deles. Raquel soltou o brao que Jean-Luc segurava e apressou-se em direo  casa, agora que as primeiras gotas grossas de chuva comeavam a cair. Sentia-se mais confusa do que nunca. Acreditava realmente que a interveno dele havia tido um efeito negativo sobre os negcios e sobre ela? Poderia o passado importar to pouco para Jean-Luc?
As palavras dele confirmaram suas suspeitas.
	Somos adultos o suficiente para esquecer o passado.
	Fcil dizer  observou Raquel com bvia amargura.
	Seja franca. Acredita honestamente que existe...
	Importa para voc o que ainda existe ou deixa de existir?
 ela perguntou.
	O que existe de verdade  muito dinheiro envolvido  ele respondeu com frieza.  Desculpe-me por parecer mercenrio, mas este  meu negcio.
Jean-Luc a seguiu at a porta da casa. A chuva j caa forte, e ele no esperou convite para entrar. Fechou a porta atrs de si, deixando l fora a noite tempestuosa.
 Raquel, voc entendeu o que eu disse?  Ele manteve o olhar desafiador, enquanto ela enxugava a cabea com a toalha.  No gosto do rumo que as coisas tomaram entre ns. Pareo um homem feliz?
Ela ficou pensativa e demorou a responder:
	Talvez eu possa ser feliz sem voc. Se me esforar bastante...
Uma sucesso de raios e troves assustou Raquel, fazendo-a procurar refgio nos olhos calmos de Jean-Luc, sonhando em abra-lo e toc-lo com mais desejo do que nunca.
	Tudo bem, fique tranquila  ele avisou.  No vou deix-la sozinha.
	No?  A palavra foi abafada pelos sons da tempestade, como se uma bateria de canhes fosse disparada acima de sua cabea. Ela ficou dura e lvida no meio da sala.
	Calma, estou aqui.
Sentiu finalmente os braos dele envolvendo-a com fora, calor e conforto.
Naquele momento, todas as incertezas se desvaneceram. Ela afundou a cabea no peito dele e fechou os olhos, desfrutando o prazer daquele abrao protetor. Tinha tanta saudade daquele corpo! Mais do que as palavras podiam exprimir!
Jean-Luc reuniu toda sua fora de vontade para no tirar vantagem da situao, embora a desejasse tanto quanto ela o queria. Quem mais, ele pensou, saberia "enlaar Raquel daquele modo? Ningum.
Permaneceram abraados at que a chuva amainou, e os relmpagos cessaram. Ele a afastou com um sorriso desajeitado.
	 melhor ir dormir um pouco, Raquel. Teremos um dia cheio, lembra-se?
	Sim.  Passou as mos por entre os cabelos midos.
Forou-se a se concentrar no que dizia, para de algum modo esquecer o que sentia.
	Voc est bem? A perna?
	Acho que sim, obrigada.  Sua voz era um murmrio.
 Com essa chuva toda, voc no quer ficar?
Ficar? Ela estava louca, por acaso? Tinha ideia da tortura que seria partilhar o mesmo quarto?
	No se preocupe comigo. Ns nos veremos amanh.
Ele pegou um pouco de bebida, esperando que um gole de lcool o ajudasse a vencer o desejo que o consumia. Raquel j se preparava para deitar. Sua nova cama de casal parecia muito grande. E vazia.
Quando ela acordou, o sol j brilhava e o ar estava fresco. Descansada, abriu a janela e colocou os cotovelos no peitoril, percorrendo o olhar pela granja.
Pensou em Jean-Luc, nas agonias da ltima noite, e concluiu que o relacionamento entre os dois havia melhorado.
Vestiu um robe leve de algodo, calou sandlias e desceu para fazer caf.
Realmente no esperava que Jean-Luc estivesse por ali, apesar de seu convite. Mas ele estava, encolhido no sof, olhos fechados e cabelos desfeitos. Parecia relaxado, to bonito e to vulnervel. Muito diferente da imagem de homem de negcios autoritrio que assumia para si.
Raquel aproximou-se para examin-lo melhor. A cala de algodo e camisa plo que ele vestira sobre o calo de banho apenas ajudavam a reforar a aparncia juvenil do quase adolescente que lhe havia roubado o corao com a promessa de no abandon-la jamais.
Foi um momento precioso. Ela o vira dormindo uma vez, no passado. Raquel permitiu-se recordar. O jardineiro titular, que era um homem rude e agressivo, j falecido, dera a Jean-Luc muita responsabilidade. Aps alguns meses de trabalho duro e de encontros furtivos com Raquel, ele estava realmente esgotado. Dormia onde quer que encostasse, e, daquela vez, ali mesmo na antiga casa de hspedes, Jean-Luc no resistira ao sono quando Raquel acariciou longamente seus cabelos.
Como antes, ela pronunciou-lhe o nome e, no recebendo resposta, contemplou avidamente as plpebras fechadas, o rosto forte e anguloso, a pele sempre fresca, as mos cruzadas sobre o peito.
	Raquel?  A voz dele ainda estava embargada de sono.
Levou algum tempo para reconhecer onde estava e o que tinha acontecido.
	Perdo, no quis acordar voc.
	Que horas so?  Jean-Luc sentou-se e passou a mo pelo rosto ainda no barbeado.
	Muito cedo. S cinco e meia.
	Cinco e meia?  Ele sorriu.   por isso que me sinto como se no tivesse dormido nada.
	O sol me acordou  disse Raquel relanceando o olhar pela janela da sala.  O dia est lindo. Estou contente por voc ter ficado.
	Que bom saber.
	Quer caf?
	Sim. Com leite, sem acar.
Ele a seguiu e encostou-se na geladeira, observando Raquel lidar com a cafeteira e tirar xcaras limpas do armrio. A exiguidade do espao, a presena to prxima de Jean-Luc a fez voltar para a realidade da situao. Ela no queria cair na armadilha da iluso. A noite passada pertencera a outro mundo, a uma dimenso irreal.
	Recebeu o programa da inaugurao?  Agora, sim, falava como uma mulher de negcios.
	Sim, parece muito bom.
	Vamos l fora  convidou e saiu para o ptio com a xcara nas mos, seguida por Jean-Luc.
Raquel o levou para determinado ponto do terreno de onde se enxergava a pequena capela, quase totalmente escondida pelas rvores e arbustos.
	Lembra-se? Era aqui que vnhamos nos proteger da chuva.
	Sim, claro. Quase havia me esquecido da capela. Ainda bem que voc a conservou.
Na infncia, com seus amiguinhas, havia brincado ali de casamento. Ainda podia sentir o ramalhete de flores silvestres nas mos.
	Gosto daqui  ela comentou.   um lugar to bonito.
	Os canteiros de flores tambm esto lindos. E cheiram bem. Voc tem talento, Raquel.
De repente, Jean-Luc sentiu saudade do passado. Era como se percebesse suas razes, tomasse conhecimento de quem ele era de fato. No conseguia ver-se sozinho. Raquel era a companheira perfeita.
	Sabe que Naomi j voltou da Esccia? Est encarregada de cuidar dos vasos de flores.
	Perguntou a ela sobre mim?  ele quis saber aps um momento de meditao.  Talvez j tenha descoberto quem eu sou.
	No creio. Apenas se mostrou emburrada desde que chegou.
	Quem sabe ela queira que eu me retire.
	No Naomi.  Raquel recusou-se a considerar a ideia.
	Ela vai me reconhecer cedo ou tarde, e ento vai lembrar-se de nosso tempo de namoro. Ou talvez Sean, como parente dela, tenha lhe contado.
	Ele me escreveu e pediu desculpas por seu comportamento.
	Mas parou de assediar voc?
Raquel deu um fundo suspiro. Era prefervel a impessoalidade do aparelho de fax ao interrogatrio na presena de Jean-Luc.
	Sim, posso lhe mostrar a cpia do fax. Sean pareceu espantando com sua prpria conduta. No fundo,  um bom sujeito.
	Bem, acho que devo confiar em voc quanto a isso.
	Na verdade...  Raquel hesitou , convidei-o para a festa.
	O qu?  Jean-Luc pareceu inconformado.  E ele aceitou?
	Sim. O que eu podia fazer? Sean  sobrinho-neto de Naomi.
	Naomi. Tia Clara. Sean. Eles ainda tm muita influncia sobre voc  acusou Jean-Luc meneando a cabea.
	Influncia? No se trata disso  rebateu Raquel com ligeira irritao.  S costumo levar em conta os sentimentos dos outros.
	Sentimentos?  Foi a vez de Jean-Luc estranhar o termo.
	Bem, no importa. Procure entender. Vou entrar agora e me preparar para um dia cheio.
	Eu tambm tenho muitas obrigaes no dia de hoje. No se prenda por mim.
	Fora uma manh atarefada. Raquel precisou esforar-se para agir com calma, sobretudo quando as coisas no corriam de acordo com os planos. Depois de um almoo leve, foi trocar-se e esperar pela chegada dos primeiros convidados. O vestido de alcinhas cor de uva combinava  perfeio com os sapatos, a bolsa e outros adereos que escolhera durante uma viagem a Londres especialmente para compras.
Era difcil imaginar que a roupa nova tivesse custado tanto quanto custara. O vestido era simples, sem mangas, e seu comprimento mal chegava aos joelhos. Mas um tecido de primeira e um acabamento primoroso valorizavam o traje de qualquer ngulo que se olhasse.
Estava ficando nervosa, agora que a festa se aproximava. Passou as mos nos cabelos, preparando-os para receber a escova. Deixou-os soltos. Mesmo com todo seu senso crtico, julgou-se muito elegante. Certamente Jean-Luc nunca a tinha visto assim. Reconheceu, com uma ponta de desgosto, que ele era a razo de todo aquele esforo. No importavam os outros convidados, os jornalistas ou os fotgrafos. Recriminou-se duramente.
Raquel voltou  penteadeira e borrifou no colo e na nuca sua costumeira colnia floral. Depois, apanhou a bolsa nova e deixou a casa, caminhando em passos firmes para a manso.

CAPITULO VII

A tarde estava quente, e Raquel lamentou no aver pensado em usar um chapu de aba larga, como algumas das convidadas, para proteger a face do sol. Tomou um gole de champanhe para refrescar-se, apoiada na parede que limitava o terrao dos fundos.
	Parabns. Voc tem o dom da organizao  disse algum.
	Obrigada.  Ela ouvia o som dos risos e conversas no terrao bem decorado.
	O almoo estava excelente  elogiou outro convidado.  Disseram-me que voc ajudou a escolher o cardpio.
	Fiz algumas sugestes  ela agradeceu com modstia.
	Eu trouxe o chefe de cozinha da Frana  afirmou Jean- Luc aproximando-se , mas Raquel  quem praticamente deu as ordens.
Foi uma declarao simples e neutra, como convinha ao personagem principal da festa, elegantemente vestido em um terno de linho claro. Ele atraa os olhares dos homens e o sorriso das mulheres que passavam com suas taas de champanhe nas mos. Um quarteto de jazz completava o ambiente agradvel.
	Ouvi vrios comentrios favorveis.  Jean-Luc fez uma pausa para observar o palhao malabarista que atirava para o ar e recolhia uma diversidade de objetos.  Sua ideia?
	Sim.  Raquel tomou outro gole de bebida e constatou que deveria ser o ltimo.
	Quer mais uma taa? Vou pegar para voc  ofereceu ele.
	Alguma coisa sem lcool. Estou um pouco zonza  justificou-se.
Jean-Luc chamou o garom que passava, equilibrando a bandeja, e pegou um copo alto de suco de laranja, cheio de cubos de gelo. Raquel sorriu, agradecida, e bebeu em silncio.
Passado um momento, ele tirou o copo das mos dela e pousou-o na mureta de pedra.
	O que est fazendo?
	Vamos danar.
	No.  Raquel balanou a cabea negativamente.  No  uma boa ideia.
	Por qu? Vi voc danando com diversos convidados. Por que no comigo?
	Voc sabe por qu.
	Prometo no apert-la, mas dance comigo.  O olhar era instigante.  Seno, posso tomar uma atitude drstica.
	Atitude drstica?  Ansiosa, ela procurou esconder o confronto das pessoas que estavam por perto.  No me provoque, por favor.
	Quem falou alguma coisa parecida? No quero provoc-la, apenas quero que dance comigo.
Ela tentou livrar-se da mo que Jean-Luc j colocara em seus ombros, para gui-la at a pista de dana. Sentiu o toque dele em suas costas nuas e quis manter-se arredia, mas isso era impossvel sob o olhar de tantos; convidados.
	Est bem, voc venceu.
Depois dos primeiros compassos, Raquel relaxou e at desfrutou das habilidades de bom danarino de Jean-Luc. No tinha imaginado aquela virtude dele, j que nunca haviam danado juntos. Quando a msica tornou-se lenta e romntica, ele colou o rosto no dela e apertou-lhe o corpo contra o seu.
	J danamos bastante  ela murmurou, comeando a afastar-se.
	S uma dana?  Jean-Luc ergueu as sobrancelhas e segurou-a com fora entre os braos.
Sem reao, Raquel deslizou rgida pela pista, recusando-se a olh-lo no rosto e preocupada apenas com a proximidade de Jean-Luc.
	Posso ir agora?  ela perguntou quando a msica acabou.
S ento olhou para ele, viu sua expresso contrafeita e percebeu que suas palavras haviam soado mais duras do que pretendia.
	Claro.  Ele recolheu as mos e afastou-se para dar-lhe passagem.  Dever cumprido.
	No  isso, Jean-Luc...
Ele esperou e fitou-a friamente enquanto Raquel hesitava, procurando algo para dizer, consciente de que a ltima coisa que queria era discutir de novo com Jean-Luc.
	Acho que vou misturar-me  multido  ele disse em um tom de voz que a magoou.  Faa isso tambm. Voc  mais dona da festa do que eu.
Um estranho, quase perigoso silncio se interps entre eles, e ento ele virou-se abruptamente e deixou-a parada no meio da pista.
O que havia de errado com Jean-Luc? Estava agindo como um imbecil. Se ela no queria danar com ele, precisava demonstrar seu desapontamento to claramente?
No outro canto do salo, ele atendeu uma atraente jornalista e logo a tirou para danar. Testemunha aflita da cena, a ar-quiteta Yvette seguia Jean-Luc com os olhos, mas no se atrevia a abord-lo. Talvez pensasse, ponderou Raquel, que ela e Jean-Luc tinham um compromisso srio e, como eram seus patres, no convinha desafi-los.
Raquel cansou-se de olhar o ambiente e concentrou-se nas conversas que podia ouvir em torno da mesa que voltara a ocupar. Sorria de modo completamente falso para as pessoas que a cumprimentam a distncia. Estava aborrecida porque tinha certeza de que Jean-Luc a vira sentada ali e no se dispusera a lhe dar qualquer satisfao.
Pedindo desculpas para o grupo mais prximo, ela saiu do salo repleto e dirigiu-se  varanda.
	Naomi, o que aconteceu?
	Nada.  A velha senhora enxugava os olhos com a ponta do avental.  No  nada. Apenas tive vontade de chorar.
	Mas por qu?  insistiu Raquel, levando Naomi para sentar-se com ela na mureta.  E por causa da reforma, das novas instalaes da granja?
	No  isso.  A mulher foi lacnica.
	Ento o que ? Voc est diferente desde que voltou da Esccia. Quer me contar alguma coisa?
	No h nada para contar  disse Naomi em tom defensivo, antes de correr os olhos lacrimosos pela propriedade.  J sei quem ele   anunciou bruscamente.  Sean me contou o que houve, e deduzi o resto. Por que no me contou desde o comeo?
	Porque...  Raquel meneou a cabea, sem achar as palavras.  Voc sabe, Naomi, que foram tempos difceis para mim. Sofri um grande choque. Demorei para me recuperar.
	Por que ele est aqui?
	Bem, Jean-Luc tornou-se um homem rico, um investidor.
Pagou as dvidas da granja e financiou as reformas. Com isso, ficou sendo meu scio neste empreendimento.
Raquel havia usado os termos mais simples e compreensveis que encontrara. Procurou Jean-Luc com os olhos e o descobriu no centro de um grupo. Estava usando culos escuros, o que lhe aumentava o charme, e segurava um copo na mo. Agia e falava de maneira descontrada.
	Voc e ele...  a voz de Naomi estava rouca , j conversaram?
	Claro, temos falado de negcios desde h muitos meses.
	Sobre o passado, quero dizer.
	No.  Raquel foi taxativa, omitindo de Naomi qualquer relacionamento pessoal.
	Se quer meu conselho, afaste-se dele. Voc sabe quanto sofreu por causa desse homem. Tia Clara no gostaria de v-la namorando-o de novo. Disso tenho certeza.  Enxugou as lgrimas que voltavam.  Por mim, deixaria o banco tomar posse da casa.
	Oh, Naomi! No pode pensar assim.
	Por que no? Ele s est aqui para lhe causar problemas, eu sei.
	Como pode saber?
	Se soubesse antes quem ele era... Sempre me tratando mal, como se eu no fosse ningum.
	Quando?  a voz de Raquel soou aguda.  O que ele andou dizendo para voc?
	No quero falar disso agora.  Naomi balanou a cabea grisalha.  Sabe que ele telefonou para Sean e o proibiu de vir  festa? Est vendo como ele quer mandar em todos?
No estou feliz com a presena dele, s isso. E peo-lhe, minha menina, para tomar cuidado, ou ele far seu corao em pedaos outra vez.
De novo o olhar de Raquel fitou Jean-Luc, a metros dali. As palavras de Naomi tinham sido pessimistas, uma cruel recordao de como ela servira de joguete nas mos dele. Agora, aquele retorno inesperado a sua vida poderia ter um efeito debilitante. Ela admitia para si mesma que estava perdendo o bom senso que a ajudara a atravessar os negros anos de vazio e solido. E era simplesmente incrvel como Jean-Luc parecia meigo e confivel.
O que Raquel recusava-se a reconhecer era a atrao instintiva que a ligava a ele. Mas, o que fazer? Cada vez que ele a olhava, ou que ela sentia seu toque abrasador, no pensava mais, ficava sem defesas ante a perspectiva de xtase total que se lhe oferecia.
Ela desejou que Naomi no tivesse notado seus temores secretos. Isso apenas a deixaria mais vulnervel, mais receosa do futuro imediato.
"Eu ainda o amo", disse a si mesma. Esse sentimento no poderia ser negado por muito mais tempo. Era estranho que a verdade s viesse  tona naquele momento, com o bondoso alerta de Naomi ainda ressoando em seus ouvidos, mas talvez a velha senhora tivesse servido de vetor para demonstrar a fora de seus sentimentos.
Raquel encostou-se na mureta onde Naomi estava. No havia existido um s minuto, desde que conhecera Jean-Luc, em que deixara de am-lo.
Ouviu alguns garons, contratados para a ocasio, falando sobre Jean-Luc. A quase totalidade dos convidados j havia se retirado, os msicos do quarteto de jazz guardavam seus instrumentos, e um batalho de arrumadeiras comeava a limpeza do local, a fim de deixar o hotel pronto para receber os primeiros hspedes,
	No se comporta como um milionrio pedante  falava um garom.  Cumprimentou-me e falou comigo.
	Viu o carro dele?  interveio outro, tirando o palet branco.  Mesmo que fosse pobre, trabalharia para ele de graa!
	H um falatrio de que ele e ela tm alguma coisa... 
	No?!
	E verdade. Viu quando danaram? Os olhares que trocaram?
	Ento, acho que ele s no tem muita sorte com as mulheres.
	Ora, vamos, Debbie. Voc s est com cime. Ela  uma bela mulher. E muito competente.
	No  uma questo de competncia nos negcios  retrucou a garonete.  Quisera eu que ele me olhasse daquele jeito! A eu lhe mostraria o que  ser competente!
Todos riram e pararam bruscamente ao notar Raquel passando por eles e entrando no salo. Havia muito o que fazer, e ela nem sabia por onde comear.
	Voc parece apressada.  Jean-Luc interps-se em seu caminho, tocando-lhe o brao delicadamente.
	Tem razo. Faltam diversas providncias, se queremos ter o hotel aberto esta noite.
	No pode chamar sua equipe de funcionrios?
	Eu fao parte da equipe  ela disse com firmeza.  Ou voc esqueceu?
	No, no esqueci  ele retrucou, espantado com a disposio dela.
	O que voc andou dizendo a Naomi?  ela quis saber.
Jean-Luc arregalou os olhos, e Raquel no pde deixar de pensar que a conversa tomava um rumo perigoso.
	Naomi? Nada. Por qu?
	No quero que voc a aborrea. Est velha e merece um pouco de respeito. E voc no tinha o direito de impedir que Sean viesse.
	Ele no tem nada a ver com o hotel. Seria uma presena indesejvel.
	Sean tem a ver comigo e com Naomi. Voc devia pelo menos ter-nos consultado.
Ali estava a confirmao de que Raquel ainda sentia algo por Sean. Jean-Luc precisou esforar-se para manter a calma. Preferiu mudar de assunto.
	Do que foi que Naomi reclamou? Garanto que no a insultei nem ameacei.
	No seja ridculo!  A irritao de Raquel aumentou.
 S estou lhe pedindo para trat-la com respeito, apenas isso. Vive com minha famlia h muito tempo e foi uma pessoa importante para tia Clara.
	Como pude esquecer disso?  Jean-Luc sorriu.
	Sem sarcasmo, Jean-Luc. Estou muito cansada para aguentar isso.
	J lhe ocorreu em algum momento que Naomi pode estar tramando contra ns?
	No!  ela respondeu com evidente aborrecimento.  S mesmo em sua cabea!
	Pense um pouco, Raquel. Ela nunca gostou de mim, em todos esses anos.
	No  verdade. Naomi estava apenas sendo...
	Preconceituosa?
	Leal e protetora.
	Protegendo-a do qu, exatamente?
Raquel no respondeu de imediato. Concedeu-se uma pausa para respirar.
	Voc deveria saber a quem ela protegia. E de quem.
	Mas no sei  mentiu ele, com um brilho malvolo no olhar.  Quem sabe voc possa me esclarecer.
	J disse tudo o que tinha a dizer.  Cansada de discutir, Raquel afastou-se um passo, consciente de que alguns pares de ouvidos prestavam ateno ao dilogo, no canto da varanda.
 Tenho bastante trabalho  minha espera.
. S um minuto  pediu ele.   importante que voc saiba que j estou imune a preconceitos e intrigas. Salvar a granja me pareceu uma boa maneira de sepultar os fantasmas de nosso passado.  Segurou-a firme pelo brao.  E no fuja de mim!
Raquel franziu a testa, sem entender a raiva dele. Olhou para os dedos fechados com tanta fora que lhe marcavam o brao.
	Ainda no percebeu que quero mant-la sempre a meu lado, acontea o que acontecer?  Os olhos dele pareciam queim-la.  Voc ainda  to ingnua quanto seis anos atrs?
Raquel engoliu em seco. Ignorava como reagir. Sabia apenas que estava assustada com as palavras de Jean-Luc.
	Talvez eu ainda seja ingnua, sim. Preciso ser, para suportar sua presena aqui, e at mesmo para imaginar que voc possa ter mudado.
	Ah, eu mudei!  Jean-Luc tinha agora a voz calma.  Se h alguma certeza em minha vida,  essa. Eu mudei, Raquel.
Raquel colocou a bolsa em cima da mesa de seu escritrio. O cmodo tinha sido, antes da reforma, uma ampla despensa, e dificilmente poderia ser considerado espaoso. Mas a troca da velha e pequena janela por uma grande parede de vidro, dando vista para o estacionamento, transformara aquela rea em um lugar aprazvel onde ela podia trabalhar, ou mesmo fechar a porta e espairecer.
As horas passaram depressa desde a ltima e desgastante conversa com Jean-Luc. Ela resolveu uma srie de questes pendentes e, quando terminou, exausta, teve a certeza de que o hotel funcionaria sem grandes problemas.
De qualquer modo, era bom estar ocupada! Nada havia a ganhar tentando alterar o inaltervel. Pela janela, viu a turma de garons e garonetes deixar a granja, conversando e rindo alto, um pequeno exrcito de pessoas que parecia no ter preocupao alguma no mundo.
	Ainda aqui?  Colin, o subgerente que Jean-Luc trouxera de um de seus outros hotis, abriu a porta com ar amistoso.
 Pode ir descansar. J  meu turno.
	Vou logo mais  Raquel informou com um sorriso.
	Est bem instalada na antiga casa de hspedes?  Colin era um homem de meia-idade, simptico e eficiente; sabia tanto ou mais do que Raquel sobre gerenciamento de hotis.
	Sim, adaptei-me bem.  Ela pensou na casa compacta e em seus planos para construir um jardim e um quarto de hspedes.
	Certamente no  fcil acostumar-se, depois de ter vivido em uma manso deste tamanho.  Ele tirou seus culos e esfregou os olhos.  Bem, se me d licena... Boa noite.
Raquel devolveu a saudao e olhou uma pilha de currculos dos candidatos a instrutor de natao e ginstica. Ansiava por estar em casa, deitada na cama. Mas aquele estado de exausto exigia muito esforo para levantar-se e sair dali.
Quando a porta do escritrio se abriu, ela imaginou que fosse Colin de novo, com alguma informao de ltima hora. Estava escrevendo seu comentrio sobre o currculo de um candidato bem qualificado, e assim no se preocupou em erguer a cabea e ver quem entrava. No era Colin.
Jean-Luc estava apoiado na parede oposta  mesa de Raquel, o que no significava uma grande distncia naquele escritrio compacto. Ele j havia deixado o palet no quarto e abrira a camisa at o meio do peito. As mos descansavam informalmente nos bolsos da cala de linho.
Raquel sentiu o corao bater mais apressado e recriminou-se por ser realmente to ingnua. Ou teria outro nome o turbilho de emoes que experimentava?
	No podemos continuar assim  disse ele calmamente, mas certo de seu poder de convencimento.
	Continuar como?  ela murmurou, demonstrando uma falsa indiferena.
Ele no respondeu. Com esforo, Raquel levantou-se e o esperou atrs da mesa. O cansao deu lugar  expectativa,  tenso,  excitao de v-lo aproximar-se com os olhos toldados de desejo.
Nada alm da paixo podia afet-la naquele momento. No importava se Jean-Luc se mantivesse silencioso e zangado. No importava se, definitivamente, ele no a amasse.
Ele a desejava.
Pela primeira vez desde a volta dele, isso bastou a Raquel. Ela devolveu-lhe o olhar indolente. Contemplaram-se por longos segundos. Ele finalmente se aproximou e a beijou como se ela fosse a nica mulher do mundo. Fez os lbios correrem por seu rosto, depois passou-os pela linha do maxilar e pelo pescoo, experimentando com a lngua o gosto de sua pele.
Enquanto isso, a mo forte de Jean-Luc lhe acariciava o corpo, deslizando dos seios bem delineados para os quadris que o vestido justo tornava to atraentes. Ela pde sentir o desejo de Jean-Luc,  medida que ele a pressionava contra si.
	No aqui!  a voz dela era pouco mais que um gemido.
Ele a fitou no fundo dos olhos, srio e passional, depois beijou-lhe a boca com demorada e sensual certeza, ento tomou-lhe a mo para sarem do escritrio.
A urgncia da entrega apressou-lhes os passos. Na granja deserta, ningum os viu correndo ofegantes e de mos dadas, atravessando o pomar at chegarem  casa dela.
Ali era o territrio de Raquel. E foi ela quem conduziu Jean-Luc escada acima, tomando flego apenas quando entrou em seu quarto e comeou a desfazer-se da roupa. Ele beijou, tocou e acariciou cada centmetro de seu corpo,  medida que ela ia deixando livre sua pele rosada e sensvel.
Transfigurada, Raquel no era mais senhora de sua vontade. Ajudou Jean-Luc a tirar a roupa e impulsivamente retribuiu-lhe as carcias com a mo e com a boca. A cama larga logo os acolheu como um ninho de amor.
Ele no disse uma palavra, mas isso era desnecessrio. Ela podia ver o desejo nos olhos dele, o vigor masculino que o impedia de resistir ao apelo dos sentidos.
Nenhum homem sabia olh-la como ele o fazia, com uma expresso de puro xtase. Nenhuma mulher se abandonaria to completamente nos braos dele, recebendo a presso da boca contra a sua, o toque das mos sobre o corpo, o redemoinho de prazer contido na glria da definitiva posse.
Ela o amava.

CAPITULO VIII

Foi tudo como Jean-Luc sempre havia sonhado, embora ele se assustasse um pouco com a premente necessidade dela, que o dominava at o mais fundo de seu ser. Seis anos antes, seu dilema tinha sido ficar com Raquel ou abandon-la, e ele optara por uma conveniente distncia da nica mulher com quem realmente queria estar. Outros tempos, outras escolhas.
Agora, Jean-Luc desejava tornar-se uma pessoa especial para Raquel. Desejava faz-la esquecer o passado e acabar de vez com a dor da separao. Cada toque em seu corpo tinha a finalidade de prend-la pelo prazer, de faz-la questionar-se de como podia ter vivido sem todo aquele arrebatamento.
Raquel estava aninhada no colo dele, com os braos envoven-do-lhe a nuca, desesperada para prolongar os momentos de amor.
	Olhe para mim  pediu Jean-Luc, e Raquel ajeitou-se na cama para fitar aqueles olhos que lhe despertavam tantas incertezas. No estava mais disposta a sofrer alguma rejeio.
Qualquer comentrio que revelasse indiferena a levaria ao inferno em que vivera os ltimos anos.
	Nada mudou...  murmurou ele em tom afetuoso. Inclinou-se um pouco para beij-la ria boca.  Absolutamente nada. 
Ele girou o corpo para ficar ao lado dela na cama, com as mos atrs da cabea. Raquel o contemplou calada, repetindo para si mesma as palavras que acabara de ouvir. Nada tinha mudado. Mas isso era bom ou ruim? Jean-Luc ainda a desejava ardentemente.
Ela colocou-se sobre ele e beijou-o, contente por no t-lo perdido aps todo aquele tempo.
Ele deve ter percebido o medo nos olhos de Raquel, pois tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios, sorrindo gentilmente. Seu silncio a enervava, punha em xeque a pequena certeza que conquistara. Tudo acontecera muito depressa. Haviam se comportado como antes, como adolescentes impacientes. Jean-Luc sempre agira impulsivamente, mas agora...
Agora Raquel no queria que ele fosse simplesmente carinhoso.
	Est tudo bem com a gente, no est?  ela perguntou com aflio.  Quero dizer, podemos esquecer o passado e recomear do zero.  Dirigiu-lhe um sorriso tenso.  Eu estou disposta a isso. Estou disposta se voc tambm estiver.
Ele sentou-se na cama, mostrando os ombros largos que tanto a atraam. Um sexto sentido indicou a Raquel que ele estava menos inclinado a am-la irrestritamente do que ela a ele.
	Estar aqui com voc...  A voz pareceu sombria, cheia de segredos. Balanou levemente a cabea, como se no acreditasse em seu prprio comportamento.  Esta noite... o modo como nos amamos... voc me levou  loucura.
	Ento?  O que Raquel esperava, no fundo, era uma declarao de amor.  Gosto de voc quando se entrega assim. Lembra-se de...
	No, Raquel!  O tom era urgente.  Sem lembranas, por favor. No quero viver no passado, s importa o momento presente.
	Mas...  Ela tentou protestar. Tinham partilhado tanto amor na juventude, ela havia sofrido tanto com o abandono, que ele no podia meramente esquecer.
	Estou falando srio. Prefiro no me lembrar de nada.
No silncio que se seguiu, Raquel ficou olhando um ponto indeterminado do teto, lutando para manter sua racionalidade. A noite de paixo tinha potencializado todas suas emoes. Ela se sentiu fraca e vulnervel, embora Jean-Luc no a tivesse rejeitado claramente. Ao contrrio, ele fizera amor com uma intensidade que no deixava dvidas quanto a sua dedicao.
	Se  isso o que quer  ela conformou-se, diante do silncio dele.  Vamos descer. Gostaria de tomar um caf.
O sorriso caloroso de Jean-Luc afastou, pelo menos naquele momento, os temores de Raquel.
	Seria muito bom  ele comentou, levantando-se e ajudando Raquel a erguer-se. Com isso, trouxe-a de novo para junto de si e beijou-a apaixonadamente.  No quero mais mago-la  asseverou ele.
"Voc no quer, mas voc pode", pensou ela, olhando com extraordinria meiguice para o rosto do amado. "Sim, voc pode me magoar." E, nesse caso, como falar de amor?
A cozinha moderna e funcional contrastava com a decorao rstica da antiga casa de hspedes, que Raquel tinha reformado com evidente bom gosto. Pequenos aparadores exibiam agora vasos de flores, que enchiam a sala de uma suave fragrncia.
Em poucos minutos, ela preparou um desjejum completo e serviu Jean-Luc, que, sentado  mesa, acompanhava tudo com curiosidade. O aroma forte de caf fresco sobreps-se ao perfume das flores.
Raquel sentou-se e lembrou-se do momento em que, na sala principal da manso, sofrera o choque de rever Jean-Luc aps tantos anos de ausncia. Tinham conversado como dois estranhos, e ela se sentira perturbada com o reaparecimento dele. No era muito diferente do que sentia agora, embora por razes diferentes.
Fechando os olhos aps um gole de caf, ela pensou como fora maravilhoso ser abraada de novo por Jean-Luc. Silenciosamente, pediu que ele nunca mais a magoasse, que a amasse com intensidade.
	Gostei de sua nova casa. Ficou muito simptica  ele comentou, virando a cabea na direo da sala.
	Voc costumava detestar a moblia  ela recordou.
	Sim  respondeu ele um pouco tenso.  Isso faz muito tempo. As pessoas mudam. Agora gosto do sof, das poltronas, das cortinas... Raquel...  Ele tomou-lhe a mo por cima da mesa.
	O qu?  ela franziu a testa e o olhou com aflita expectativa.
Ele odiava v-la assim, desconfiada, e naquele momento pensou seriamente em pedir-lhe perdo pela dor to grande que lhe causara no passado. Hesitou por um longo minuto, observando a expresso lvida de Raquel.
	No lamento que tenhamos feito amor  ele disse afinal.
 De modo algum. Mas tudo tem sido difcil... para ns dois.  Inclinou o corpo para a frente, at conseguir beijar a mo que segurava. O movimento sensual de sua boca deixou Raquel arrepiada.
Ela no respondeu. Gostaria de poder dizer que lhe perdoava por tudo, mas naquele instante s conseguia pensar no modo como ele a havia enlaado e acariciado seu corpo, um modo apaixonado e sensual como nunca tinha acontecido antes.
O que Jean-Luc teria sentido na cama? Raquel no ousava adivinhar, e ele no costumava conversar sobre suas emoes. Intil esperar que o fizesse.
Terminaram o caf e as torradas com bacon e ovos. Jean-Luc ajudou Raquel a tirar a mesa e colocou-se lado a lado com ela na pia, esperando-a lavar a loua para enxugar tudo com inesperado capricho. Naturalmente, no pde conter-se e roubou-lhe um beijo no pescoo, quase provocando a queda de um prato.
	Pode ir tomar um banho, que eu termino aqui  props ele.  Voc parece realmente exausta. Culpa minha...
	De quem mais?  retrucou Raquel, aceitando o oferecimento.
Antes de subir ao quarto, a simples ao de beijar-lhe o peito nu provocou uma onda de desejo que lhe invadiu o corpo inteiro. Mas ele tambm sabia que jamais ficaria em paz na presena dela. Cada olhar, cada toque, iria sempre acelerar-lhe o pulso e despertar sua vontade, hora aps hora, dia aps dia.
	Agora v  ele pediu, empunhando o pano de prato.
Envolta no clima de sensualidade existente entre os dois, Raquel imaginou se Jean-Luc no subiria at o banheiro para contempl-la e depois provoc-la. Esse pensamento a excitou de tal forma que o simples ato de ensaboar-se com a esponja tornou-se um prazer solitrio, mas nem por isso menos intenso. Tinha dvida se Jean-Luc a desejava to desesperadamente, a cada minuto, e sem restries.
Na verdade, ele s no queria que tudo se resumisse a sexo e desejo. Queria reaproximar-se de Raquel demoradamente. Pensamento um pouco tardio, talvez, levando em conta que fora ele quem a provocara, ao invadir o escritrio. Mas no custava tentar.
	Parece muito bom!  disse ela com alegria, ao voltar, vendo a cozinha bem-arrumada, impecvel.
	Tenho meus dotes  brincou Jean-Luc, sentando-se junto a ela.
	 mais uma pequena coisa que fizemos juntos  comentou Raquel.  H tantas outras...
	Sim.  As feies dele estavam tensas.
	Sem contar nossas travessuras dos velhos tempos. Lembra-se de quando pulamos a janela? Foi um tempo perfeito. Eu era to jovem.
	Erro meu.  Jean-Luc pareceu nervoso.  Sendo mais velho, nunca deveria ter envolvido voc em um jogo de cartas marcadas.
	Se eu soubesse de suas intenes...  Ao contrrio dele, ela estava preparada para conversar calmamente sobre o passado.  Cada um de ns esperava coisas diferentes do outro.
	E isso logo ficou muito claro.  Seus olhos a procuraram.  Acho que fizemos tudo errado.
	Voc faz parecer que nosso relacionamento foi uma espcie de... crime.
	E no  o que muita gente pensava?
	Se est se referindo a tia Clara...
Jean-Luc no estava  vontade. Temia perder-se em seus prprios conceitos e palavras.
	No gosto de discutir coisas que no podem ser mudadas, aquel.  completamente intil.
	O que voc fez depois que foi embora?  ela aventurou-se a perguntar.
	Est falando de meus negcios?
	Sim, parece que foi uma faanha  observou ela.
	H uma dose de ironia em nossa situao, no acha?  A boca curvou-se em um sorriso triste.  Venho de uma famlia muito rica e sou o nico herdeiro.
	Mas...  Raquel balanou a cabea, tomada de surpresa.
	Todos pensavam que eu era um pobre jardineiro, trabalhando duro para pagar os estudos. Sim, eu sei.
	E por que escondeu isso? Por que no contou?
	Para tia Clara? Para voc?
	Mas isso teria...  Ela interrompeu-se bruscamente, perdida em pensamentos.
	Teria mudado tudo, no ?  Jean-Luc deu um toque sardnico  voz.  Infelizmente, devo concordar com voc. Mas preferi passar por um rapaz pobre e excludo.
	Voc foi injusto consigo mesmo  Raquel afirmou.
	E o que realmente pensa?  Ele ergueu as sobrancelhas.
	Dinheiro no me importa, nem me importava ento.
	Ah, mas a opinio de sua tia importava.
	Ela era a nica famlia que eu tinha. Voc nunca entender como foi difcil para mim. Por favor, Jean-Luc, no vamos brigar. No depois de ontem  noite.
Raquel deixou o corpo pender para o lado at que sua cabea se aninhasse no ombro dele. Ele procurou-lhe a mo sobre a mesa e cruzou os dedos bem apertados.
	Detesto quando brigamos  ela murmurou docemente.  Detesto.
	Eu tambm  disse ele com convincente certeza, mas sem a mesma emoo de Raquel.  E por isso que acho pssimo trazer o passado de volta. No podemos mud-lo, mas podemos deix-lo em paz.
	Tem razo.  Raquel suspirou fundo, apertando sua mo contra a dele. Sorriu debilmente, cnscia da fragilidade do. momento.  Alguma outra revelao que voc queira me fazer? Talvez tenha chegado a hora.
Era uma brincadeira. Raquel estava ansiosa por restabelecer uma atmosfera de confiana mtua na qual seu relacionamento pudesse florescer.
Ao erguer a cabea do ombro de Jean-Luc, ela notou-lhe a expresso fria como ao, o dilema que seus olhos exprimiam.
	Jean-Luc! No faa isso comigo. Se tem alguma coisa a me dizer, ento fale, por favor.
	Eu tenho uma esposa. Quero dizer, tive. Estamos divorciados.  Ele estava calmo e controlado.  Quer fazer algum comentrio?
Raquel ficou calada. Aps alguns segundos, largou a mo de Jean-Luc bruscamente. Viveu o doloroso conflito de encontrar o que dizer, em resposta quela surpreendente informao. .  No tenho nada a comentar  ela retrucou com um leve tremor.
	Era melhor no ter contado  disse ele, enquanto Raquel inspirava o ar profundamente.
	Em absoluto. Eu perguntei, voc falou. Apesar de ter insistido tanto em deixar o passado em paz!  Ela sentiu-se satisfeita consigo mesma por no ter tido um ataque de nervos. Levantou-se da mesa e ficou olhando para Jean-Luc com uma expresso de incredulidade.  Vocs tm filhos?
	No. Ficamos casados menos de um ano.
Um ano? Um ms j seria demais para Raquel. Uma semana. Um dia.
	E como ela se chama?
Ele balanou a cabea, claramente experimentando sua pacincia.
	Maria  respondeu.  Chama-se Maria.
	E ela foi o motivo de tudo o que aconteceu?  Ansiava por saber se Jean-Luc a tinha abandonado por Maria.  Por que no falou antes?
	Para qu?  Jean-Luc adotou uma expresso neutra.  Que diferena faria?
	Eu gostaria de no ter sido enganada...  a voz de Raquel
soou baixa e rouca.
	Casei-me seis meses depois de ter deixado a Inglaterra, de ter deixado voc. Isso lhe diz alguma coisa?
	Claro,  As feies de Raquel estavam transfiguradas pela dor.  Que voc estava loucamente apaixonado.
Foi a vez de Jean-Luc erguer-se da mesa. Parecia irado e, com isso, ainda mais imponente. Estreitou os olhos na direo de Raquel.
	Eu a magoei muito  ele disse bruscamente.  Muito mesmo. Ela no merecia. Maria  muito meiga e carinhosa, alm de bonita.
	Voc quer me ferir com essa histria? Est preocupado em saber se magoou outra mulher, depois do que fez comigo?
 Ao menear a cabea, os cabelos balanaram formando uma bela imagem.  Todos esses anos em que sofri  sua espera no significam nada para voc?
	Voc acatava a opinio de sua tia. Acreditava que o dinheiro faz o homem.  Seu tom tornou-se irnico.  Meus Deus! Foi loucura minha imaginar que, depois de tia Clara morrer, voc mudaria. No continua to esnobe e preconceituosa como sempre?
O toque do telefone quebrou a tenso entre eles. Raquel tremia da cabea aos ps, enquanto fitava Jean-Luc com os olhos esgazeados. O telefone continuava a soar. Ele a havia chamado de esnobe. De preconceituosa. Um revoltante absurdo!
	Sim?  Jean-Luc atendeu, mais para escapar ao olhar rancoroso de Raquel.
Ela no podia imaginar quem era do outro lado da linha. Sentia-se mal, com vontade de chorar. Jean-Luc ouviu por um longo momento e desligou.
	Era Colin  ele comunicou com a expresso grave.
	E por que ele chamou, a esta hora?
	Naomi teve um princpio de derrame cerebral.  Preparou-se para segurar Raquel, ou pelo menos para consol-la. Ela levou algum tempo para assimilar a notcia.
	Oh, no!  Um fato maior se interpunha na difcil conversa entre os dois, e Raquel recuperou seu estado de lucidez.
	 grave?
	Bastante srio.  Jean-Luc manteve nela o seu olhar.
	Vou lev-la ao hospital.
Raquel mal teve tempo de pegar a bolsa e saiu correndo atrs de Jean-Luc. Colin ajudou a colocar Naomi no carro e partiram em velocidade. Raquel permaneceu calada at chegarem ao moderno hospital regional. J avisado, o pessoal da emergncia esperava-os com uma maca. Naomi desapareceu corredor adentro, enquanto eles ficavam na recepo providenciando o registro.
	Algum avisou Sean?  perguntou ela.
	Colin se encarregou disso  ele avisou.
Fazia frio no hospital, e Raquel estreitou com as mos a malha que usava em torno do peito. Jean-Luc, s em mangas de camisa, parecia bem.
Ela sentou-se na sala de espera e fechou os olhos em orao. Lembrou-se dos poucos momentos de descanso que Naomi tinha, da preocupao e irritabilidade em que ela vivia desde a volta de Jean-Luc. Teria esse fato influenciado em seu repentino problema?
	Naomi andava muito preocupada com a granja  comentou Jean-Luc.
	E com voc  Raquel complementou.
	Lamento muito.  De p  frente dela, ele a fitou com uma intensidade que poderia muito bem significar amor. Ou hipocrisia.  Nunca pretendi aborrecer Naomi.
	Mas aborreceu  ela murmurou tristemente.
Naomi fez os primeiros exames, mas, como o hospital tinha reduzido movimento, no havia neurologista de planto. Enquanto esperava o mdico, ficou na ampla e quase vazia enfermaria. Jean-Luc e Raquel tiveram autorizao para entrar.
A velha senhora dormia, parecendo to indefesa que o corao de Raquel sofreu um golpe que a levou s lgrimas.
	Detesto v-la assim. Oh, Jean-Luc,  terrvel! J perdi tia Clara, e agora Naomi...
	Calma, o mdico j chegou e est avaliando os exames.
Pode ser menos grave do que parece.  Era bom ouvir isso, e melhor ainda ter Jean-Luc a seu lado.   importante que Sean chegue logo, pois o mdico vai falar primeiro com ele, por ser o parente mais prximo.
Com delicadeza, Jean-Luc a conduziu de volta  saleta. Ficaram sentados em silncio e, meia hora depois, Sean entrou afobado, com as feies transtornadas.
	Ela est l dentro?  perguntou sem fixar o olhar em ningum.
	Sim.
	Vocs a viram? Como ela est?
	No muito bem  disse Raquel em tom baixo.
	O mdico me espera.  Ele encarou Jean-Luc com evidente desgosto.   melhor eu entrar.
Abriu a porta do corredor e caminhou rapidamente para a enfermaria.
	Ela  uma mulher to dinmica. Vai detestar ficar internada  disse Sean ao voltar quase uma hora depois e ser
abordado por Raquel.  J est na terapia intensiva. Teve obstruo em uma artria do crebro, mas felizmente no parece ser grave.
Muito agitado, Sean foi tomar gua no bebedouro antes de sentar-se.
	Onde foi parar o macho?  ele ironizou.
	Jean-Luc? Saiu para tomar um caf  informou Raquel.
	Por que ele est aqui, afinal?
	Estvamos juntos quando soubemos. Jean-Luc trouxe Naomi de carro.
	Entendo.  Os olhos de Sean estavam midos, e ele continuava agitado.  Ela me contou que vocs eram amantes. Isso explica muita coisa.  As palavras rudes de Sean ecoaram pelo ambiente claro e limpo da saleta do hospital.
	Contou?  Raquel franziu a testa.  Quando?
	Quando lhe telefonei para dizer que no iria para a festa de inaugurao.
	Fiquei bastante zangada  murmurou ela.  Voc sabe que no foi minha ideia.
	No?  Sean consultou o relgio.  Talvez tenha sido melhor assim. Sei que me comportei como um idiota.  Jean-Luc aproximava-se com dois copinhos plsticos nas mos.  Naomi ficou completamente transtornada com a presena desse sujeito. Acho que por isso a sade dela comeou a baquear.
Sempre ansiosa, aborrecida.
	Quem pode saber, Sean? No podemos acusar algum.
	Preocupou-se em terminar a conversa antes que Jean-Lucchegasse perto.
	J estou voltando para casa  avisou Sean.
	J?  Raquel mostrou-se surpresa.  Mas voc no vai esperar novas informaes dos mdicos?
	No suporto este ambiente. Odeio hospitais. Vou ligar para voc de manh, Raquel, mas agradeo se puder me telefonar em caso de urgncia.
	Claro, apenas pensei que...
	O que est acontecendo?  Jean-Luc falou com determinao enquanto passava o copinho de caf para Raquel. Espero que no a esteja aborrecendo outra vez.
	Com certeza, no. Pode recolher seus punhos de estivador.
	A animosidade entre os dois era clara.
	Segundo me lembro  disse Jean-Luc , voc  que deu o primeiro soco. Ou pretendia faz-lo.
	Voc sempre pensa que  grande coisa, no?  rosnou Sean, mas a mtua agresso morreu ali.  Ficarei em contato. Tente no se preocupar muito  ele pediu a Raquel ao afastar-se para a porta.
A figura de Sean foi diminuindo at desaparecer completamente.
	Sei o que est pensando  falou ela contrariada.
	E o que ?  Jean-Luc tomou um gole de seu caf.
	Voc s conheceu o lado pior de Sean. Ele no costuma ser to... desagradvel.
	Se  voc quem diz, posso entender.  Jean-Luc estava calmo.  Eu mesmo fui bastante desagradvel, no faz muito tempo. Podemos ir?
	No, pretendo ficar.
	De nada adiantar ficar aqui, Raquel. Naomi est bem assistida. Poder voltar amanh bem cedo, se quiser.  Fitou-a com um olhar convincente.  No seja teimosa.
	Bem, est certo. Sinto-me cansada.  Olhou para seu relgio de pulso e constatou com surpresa que j era quase uma da manh.  Foi um longo dia!
	Realmente, Jean-Luc, no h necessidade de se preocupar.  Estavam na porta da casa de Raquel.  Ficarei bem sozinha.
	Eu  que ficarei mal se no passar a noite aqui. Posso dormir no sof.
	Bem, no  preciso...  a voz dela estava calma.  Dormir no sof, quero dizer.
	Tem certeza?  Os olhos dele a fixaram com expectativa.
	Preciso implorar?
Lentamente, Raquel acercou-se dele e fechou os olhos quando seus corpos se colaram. Gemeu ao colher-lhe a boca com os lbios, em um frgil e hesitante beijo que logo se tornou avassalador.
	Ainda o quero, Jean-Luc  ela sussurrou.
A iniciativa foi dela, dessa vez. Raquel ergueu as mos para tocar-lhe o rosto, depois o queixo, em seguida o pescoo, at desliz-las pela camisa de Jean-Luc e abrir os botes, para descobrir a firmeza de seus msculos peitorais e beijar a pele quente, quase oculta nos plos macios.
Nunca havia sido to atrevida com ele antes. Mas Raquel no suportava mais abafar suas emoes, adiar a resposta de seus instintos.
Era torturante para Jean-Luc manter o controle? Ento, ele entregou-se ao prazer que ela lhe proporcionava. Por que lutar contra o desejo? Ele sabia por qu. Medo de perder-se para sempre nos braos dela, medo de render-se ao amor intenso que s Raquel poderia lhe dar, medo de esquecer as restries e de am-la tambm, como antes e para sempre.
Ele a tomou no colo com um movimento sensual e beijou-a com inesperado ardor. Pde sentir a urgncia que a envolvia enquanto a carregava, subindo os estreitos degraus de madeira.
Jean-Luc estava emocionado como nunca. Raquel o desejava e parecia totalmente segura desse sentimento.

CAPITULO IX

Era tarde quando Raquel acordou. O sol alto entrava pela janela do quarto e aquecia seu corpo nu debaixo dos lenis.
Ao recordar a noite anterior, sentiu um arrepio de prazer. Jean-Luc se empenhara em mostrar-se meigo e apaixonado. Depois, mantivera-a aninhada em seu peito por longo tempo, e ainda estava l quando ela despertou, de madrugada.
Raquel procurou Jean-Luc a seu lado na cama. Ele j havia levantado, e uma expresso de ansiedade toldou seu olhar. Teria ido embora? Preparava-se para sair do quarto e investigar quando ele apareceu na soleira da porta, portando uma bandeja com torradas e caf.
	Bom! Voc acordou!
	No devia ter-me deixado dormir tanto!  Raquel fingiu contrariedade e depois sorriu, sentando-se na cama com o lenol enrolado em torno dos seios. Era uma precauo um tanto ridcula em vista do que tinham vivido aquela noite.  Tenho muito trabalho a minha espera!
	Nem tanto. Falei com Colin esta manh, e ele vai encarregar-se de tudo enquanto voc tira o dia de folga.
	So quase dez horas. Preciso telefonar para o hospital.
	J fiz isso.  Ele colocou a bandeja ao lado dela na cama.  Ela melhorou um pouco. Esto tentando desobstruir a artria sem operar. O mdico recomendou visitas s no fim da tarde.
Jean-Luc serviu-se de caf e encheu outra xcara para Raquel.
	Que timo!  O sorriso dela foi de alvio.  Ento Naomi pode ficar boa!
	Sim, mas no vamos ser otimistas demais. O caso dela  srio. Seguramente, ficar internada por bastante tempo.
	Eu sei. - Raquel percorreu com o olhar a figura elegante de Jean-Luc.  Voc est de terno  ela estranhou, franzindo a testa de preocupao.  Vai a algum lugar?
Vestido como executivo, ele se tornava sempre imponente e dominador.
	Tenho um encontro importante, um negcio de ouro para a firma  a voz dele era firme, sem inflexo, mas Raquel no podia queixar-se de Jean-Luc ter pulado da cama e sado sem despedir-se.  Negcio urgente  ele acrescentou.  Devo estar de volta  noite.
	Vai demorar tudo isso?  ela indagou desapontada.
No era tanto, na verdade, mas Raquel preferia a companhia dele.
	Quer que eu fique com voc?  Ele a sondou com o olhar. Tinha passado quase uma hora ao telefone, tentando resolver o assunto sem precisar comparecer ao escritrio em Londres, mas as circunstncias exigiam sua presena.  Se insistir, posso cancelar.
	No  respondeu Raquel com energia, no querendo parecer to dependente.  Claro que no. S que voc no falou nada sobre a noite passada e j eet pronto para sair... 
	Sentia-se insegura diante daquele homem to bem vestido, barbeado e penteado, capaz de atrair todos os olhares para si.
	Voc deve ter levantando muito cedo  murmurou.  Foi at a manso pegar suas roupas.
	Deus ajuda quem cedo madruga  ele brincou, com os olhos brilhantes e a boca curvada em um bem-humorado sorriso. Inclinou-se para beij-la na boca, e ela sentiu o aroma de sua colnia preferida. O que mais desejava era abra-lo e nunca deix-lo partir.
	Prometo voltar logo  ele disse para acalm-la.
	E muito importante esse encontro?  ela quis saber.
Jean-Luc a fitou com o olhar persuasivo de sempre.
	Sim  ele confirmou.  A JSJ emprega muita gente.
 Parecia hesitante, sem querer entrar em detalhes.  Preciso estar l.
Raquel tinha certa dificuldade em acostumar-se a essa nova imagem de Jean-Luc. Lembrava-se dele, debochando de qualquer carreira tradicional em favor de uma vida aventureira.
	H um mundo inteiro para ver l fora  costumava dizer a Raquel.  Lugares exticos. Pessoas maravilhosas. Podemos ir juntos conhecer a sia, a frica, a Austrlia...
	Nunca tinha pensado nisso.  Raquel o olhava admirada, vibrando com a perspectiva de conhecer o mundo ao lado de Jean-Luc.  Ser divertido.
	Divertido? Muito mais do que isso! Uma extraordinria experincia humana!  ele animara Raquel, beijando-a lon
gamente.  Um dia iremos. Logo.
Isso ocorrera apenas algumas semanas antes do fim. Nunca visitara lugares exticos nem conhecera pessoas maravilhosas. Ser que Jean-Luc j os teria conhecido, sem ela?
	Voc viaja bastante?  ela perguntou.
	Sim, mas quase sempre a negcios.
	Ento conhece boa parte do mundo.
	Praticamente tudo. Todos os continentes. Menos a Antrtida.
	Gostou do que viu?  A indagao teve um tom triste.
	Se gostei?  Ele franziu a testa.  Eventualmente. Viajar a negcios  um teste de resistncia. Uma correria permanente.
	Mesmo quando se tem o prprio avio e um carro com motorista?
	Mesmo assim  Jean-Luc sorriu.
	Voc leva uma vida muito especial, no ? Realmente no fao ideia de como  viver dessa maneira.
	Garanto-lhe que no  to bom  ele respondeu com suavidade.  Voc no gostaria.
	Por que faz isso, ento? Quero dizer, por que vive assim?
	Sem motivo aparente, ela parecia ansiosa por saber.
	Porque...  ele hesitou, procurando por uma explicao. as coisas acontecem. Quando percebe, j est preso em uma roda-viva. Dinheiro chama dinheiro, e negcios atraem negcios. Isso nunca pra.  Olhou para Raquel demoradamente.
	Eu mudei bastante. E sem dvida voc j percebeu.
	Sim.  Ela engoliu em seco.  Eu tambm mudei.
	Voc?  Jean-Luc inspecionava seu rosto com o olhar.
	Como poderia no ter mudado? Seis anos fazem diferena.
	Ontem  noite no notei diferena alguma.  Ele a beijou e depois deu um sorriso malicioso.  Ligue-me se precisar. O nmero de celular est ao lado do telefone.
	Est bem.  Raquel sorriu de volta e soube que no poderia ret-lo mais.  Boa viagem.
	Ah!  Ele voltou-se, j com a mo na maaneta da porta. Cuide-se bem.
Jean-Luc s fez contato tarde da noite. Ansiosa, Raquel pouco trabalhou durante o dia e estava comeando a ficar preocupada, aguardando a volta dele. Por vrias vezes pensou em telefonar, e quando se decidiu seu aparelho tocou.
	Raquel!
Uma onda de felicidade a invadiu ao ouvi-lo.
	Jean-Luc!  Ela teve de elevar a voz por causa do rudo que existia ao fundo.  Onde est voc? Fiquei preocupada.
	Estou em um trfego pesado. Tudo bem a?
	Sim. Visitei Naomi no hospital, mas ela estava dormindo.
Disseram-me que est reagindo bem ao tratamento. Os mdicos esto otimistas.
	Isso  bom.  Ele parecia nervoso e apressado, a ponto de mudar o tom de voz.  Raquel, aconteceu um imprevisto. No vou conseguir voltar esta noite.
	No?  Ela esperou uma explicao. A expectativa de ter Jean-Luc em seus braos a mantivera agitada durante as longas horas do dia.  O que houve? Algum problema na reunio? Alguma coisa no deu certo?
Seguiu-se uma pausa opressiva que deixou Raquel exasperada.
	No vou mentir para voc. No  por causa dos negcios que no posso voltar.  Mais uma pausa, mais uma sensao de frio no corao.   Maria. Encontrei-me com o pai dela.
Ele disse que ela no est bem. Eu no podia imaginar...
	Maria?  Raquel repetiu o nome, embora soubesse de quem se tratava.
	Sim, Maria, minha ex-esposa  ele confirmou aps breve intervalo.
	Ah, entendo  ela murmurou com desgosto.
	Preciso ficar um pouco com ela e sua famlia  continuou Jean-Luc.  E importante.
		Claro.  A contrariedade de Raquel no ocultava um toque irnico.
	 um caso de doena. Ela est muito mal  ele refutou gentilmente.
	O que aconteceu? Posso ajudar em alguma coisa?  Finalmente Raquel decidiu demonstrar alguma cumplicidade com Jean-Luc.
	Um problema srio no fgado.  A voz firme parecia esconder um turbilho de emoes.  Alm da questo mdica, h outras complicaes. Contas para pagar... Voc compreende, Raquel, que eu preciso ficar?
	Sim  ela balbuciou vacilante.  Claro.
	A famlia dela est arrasada!
	Maria casou-se de novo?  Raquel perguntou com secreta esperana.
	No, conta apenas com seus pais. Quando nos casamos eles me receberam como a um filho.  O som enfraqueceu-se, e Raquel teve de se esforar para ouvir Jean-Luc em meio ao barulho forte do trnsito.
	Onde voc est, afinal?  ela quis saber.
	Em Paris. A caminho de me encontrar com eles.
	Paris?  Raquel inalou o ar profundamente. Como era fcil, pensou, Jean-Luc distanciar-se dela.
Conteve-se para no pression-lo com excesso de perguntas, porm no pde evitar mais algumas.
	Ento, quando espera estar de volta?
	No sei.  Ela o ouviu suspirar.  Muitas coisas ruins aconteceram de uma vez, Raquel. Mas no se preocupe demais.
	Como poderia? J estou preocupada.
	Cuide-se bem  ele pediu aps uma pausa.  Logo estaremos juntos.
Os dias passaram devagar. Jean-Luc telefonava sempre, mas a conversa era entrecortada e difcil. Raquel tinha muito a dizer, mas no sabia como comear. Perguntava sobre Maria e recebia apenas a informao de que tinha melhorado um pouco, mas que a presena de Jean-Luc ainda era necessria.
Ele quis notcias de Naomi, e Raquel repetiu o que havia ouvido dos mdicos: ela se recuperava lentamente. Nessas ocasies, Raquel disfarava a tenso adicional na voz ao falar de Naomi. O que menos desejava era preocupar Jean-Luc ainda mais, ou explodir em lgrimas, enquanto ele estava a quilmetros de distncia.
Assim, escondeu o fato de que a amiga se enervava cada vez mais com a presena dela no quarto, e por mais de uma vez havia chorado ao ver Raquel. A situao chegara ao ponto de os mdicos recomendarem que ela suspendesse as visitas por alguns dias.
Eles acabavam falando de coisas sem importncia, como o tempo, ou como o hotel recebera elogios em uma revista especializada. Houve uma vez em que a conversa entre os dois terminou em menos de um minuto.
Surpreendentemente, o nico consolo dela era o trabalho no hotel. Tinha orgulho da boa organizao que ela e Colin haviam imposto, de modo a conseguir melhor eficincia nos servios e maior comodidade dos hspedes. Os quartos eram reservados sempre com antecedncia, e a boa reputao do restaurante e das outras instalaes a cada dia tornava-se mais slida.
Sean a ajudava muito. Raquel passava vrias horas com ele, que ficara encarregado de visitar Naomi no hospital e trazer notcias.
Naquele dia, estavam sentados  mesa do restaurante do hotel, conversando depois de um agradvel almoo. Sean parecia mais relaxado e gentil, apesar da doena da tia. Era o resultado, ele contou a Raquel, de aceitar o fato de que podia manter com ela uma boa e franca amizade platnica.
	Fico contente por voc sentir-se assim  sorriu Raquel em apoio a Sean.  Voc sabe que sempre nos demos bem, e agora est ainda melhor. Sem cobranas e ressentimentos.
	Exceto por tia Naomi,  claro  Sean murmurou tristemente.  Sei que voc est aborrecida por ela no querer v-la.
	E difcil aceitar  disse Raquel franzindo a testa.  Apenas no entendo por que ela fica to emotiva com minha presena.
	Talvez seja apenas ansiedade  afirmou Sean.  Acho que ela quer dizer alguma coisa a voc e no consegue, com todos aqueles tubos na boca e no nariz. Tambm sinto que quer falar comigo e vejo a frustrao nos olhos dela. Mas pelo menos ela sabe o que estou fazendo.
	Ela sempre foi uma mulher forte  observou Raquel, olhando para os jardins externos pela janela do restaurante.
Parecia incrvel, mas poucos meses atrs aquela rea era um canteiro de obras. Mas nem a bela viso lhe devolveu o bom humor naquele momento. Com Jean-Luc longe e Naomi internada, seu mundo havia desabado.
	Voc contou uma vez que Naomi estava pensando em mudar-se para perto da irm dela.  Raquel retomou o dilogo sem maior entusiasmo.  Pode ser bom, no acha?
	Sim, mesmo que ela se recupere, nunca mais ser a mesma Naomi. Vi alguns anncios, e os preos de imveis esto altos. No creio que ela tenha poupana suficiente para comprar uma casa por l.
	Posso ajud-la  disse Raquel com convico.   o mnimo que poderia fazer por quem cuidou de tia Clara durante tantos anos.
	Mas...  Sean sorriu debilmente.  Voc tambm no tem dinheiro disponvel, que eu saiba.
	Darei um jeito.  Pensou imediatamente em Jean-Luc. Ser que ele lhe faria um emprstimo? No havia razo para negar. Ela devolveria o dinheiro em curto prazo. Com juros, se necessrio.
	Tem saudade dele?  a pergunta de Sean era amistosa.
	Sim.  Raquel no viu motivo para mentir.
	H quanto tempo ele est fora?
	Quatro dias.
	S que parece muito mais, no  mesmo?
	Voc  muito perspicaz  ela sorriu.
	Fiquei surpreso quando ele viajou, deixando-a sozinha para cuidar de Naomi. Com certeza voc preferiria que ele estivesse por perto, estou certo?
	Suponho que sim. Mas de repente as coisas se complicaram.
	Como assim?  Sean ergueu as sobrancelhas, curioso.
	Jean-Luc est visitando uma amiga. Uma boa amiga que est muito doente.
	Uma amiga?
Raquel hesitou. Era fcil prever as concluses que Sean poderia tirar desse fato. Ela tambm, nas noites em que no conseguia dormir, pensava naquele relacionamento. O que estaria havendo entre os dois?
	No  o que pensa, Sean. Ele poderia ter-me mentido, alegando uma viagem de negcios. Mas no fez isso. Acho que devo confiar.
	 um homem muito ocupado  murmurou Sean.
	Sim, eu sei  disse Raquel com a voz triste.
	Naomi me contou que voc se apaixonou por ele quando era uma garotinha, e ele no passava de um adolescente pobreto.
	Eu tinha dezoito anos  confirmou ela, olhando firme para Sean.  Ela no usou esses termos, usou?
	Sobre Jean-Luc ser um adolescente pobreto?  Sean curvou a boca, alterando suas feies.  No, a expresso  minha. Como precisou trabalhar para pagar os estudos, deduzi que no tinha dinheiro.
	A famlia dele era rica, j naquele tempo  esclareceu Raquel para surpresa de Sean.  Mas ele preferiu esconder esse detalhe.
	Coisa que os muito ricos costumam fazer. Naomi disse que sua tia desenvolveu uma verdadeira averso por ele.
	Quando ela lhe contou isso?  indagou Raquel.
	Na manh da inaugurao.
	Acho que Naomi exagerou. Tia Clara no se preocupava tanto comigo a ponto de perder tempo com Jean-Luc, mas...
 Suspirou fundo.  O que mais ela lhe disse?
Sean ergueu os ombros em um movimento rpido de descontrao.
	Que voc era muito jovem, e ele tirou vantagem disso.
Naomi no gostava dele. Nem ela, nem tia Clara. Os dois eram novos demais para um namoro srio. Esse tipo de coisa. Para ser honesto, eu no perguntei nada, nem estava interessado nessas questes. Mas tive de ouvir.
Ela serviu-se de um gole de caf. Estava quase frio. Continuou o relato.
	Parecia gostar de falar da paixo obsessiva que unia vocs dois. Na verdade, Naomi ficara alterada ao reclamar de como tinha sido difcil para elas.
	Elas?
	Naomi e sua querida tia Clara. Ela disse que no sabiam o que fazer.
	O que fazer?  Raquel estranhou.  Elas no tinham nada a fazer, a no ser desaprovar nosso relacionamento. Mas eu estava decidida a ficar com Jean-Luc, contra todos os obstculos. Que mais ela disse?
	Pouco mais. J falei que no me interessei pelo assunto. Quando me cansava de ouvir, dizia que precisava ir embora. Ainda est apaixonada por ele, Raquel? Nada mudou?
Ela no respondeu e ficou olhando, contemplativa, para sua xcara de caf.
	No quero me intrometer - desculpou-se Sean erguendo a mo.  De tudo o que ouvi, pude concluir que voc teve de lutar muito contra qualquer interferncia em seu relacionamento com Jean-Luc. Mais caf?  ele ofereceu, em uma clara tentativa de mudar de assunto.
Ela aceitou e saboreou dois goles rpidos.
	Sabe? Voc precisa comer melhor  prosseguiu Sean.  Tem trabalhado muito e no  bom emagrecer. Ah, havia esquecido, se encontrar meu relgio em sua sala... Eu o perdi e s pode ter sido por aqui. A pulseira deve ter quebrado e...
	Seu relgio? - Raquel balanou a cabea negativamente.  No o vi, mas posso procurar.
	Agradeo. Era um relgio de estimao. E bastante caro.
Ela ergueu-se da mesa sorrindo e beijou Sean na face.
	Obrigada pela companhia. Agora preciso trabalhar.
	O prazer foi meu.  Uma ligeira expresso de frustrao tomou-lhe o rosto.  Devo dizer que ficarei aborrecido com a volta de Jean-Luc. Perderei o almoo grtis e as agradveis tardes de ch na varanda.
	Mas ainda poderemos nos ver  rebateu Raquel.
	A nica satisfao ser v-la feliz de novo  acrescentou Sean.  Anseio pelo dia em que eu possa ser responsvel pelo brilho nos olhos de uma garota. Ser um dom exclusivo dos franceses ou todos os homens tm essa habilidade?
	Infelizmente, no sei responder. Jean-Luc foi o nico ho mem que amei.
Raquel caminhou direto ao escritrio, onde alguns assuntos pendentes a esperavam. Trabalhou at tarde, sem pressa, e ento voltou para casa, a fim de esperar um telefonema de Jean-Luc. A chamada no veio.
Ela ficou em dvida sobre ligar para ele no celular. Levou longos minutos para decidir e, quando telefonou, descobriu que o aparelho dele estava desligado.
No era uma boa previso. Raquel tentou no pensar no pior, mas era uma situao torturante. Ter cime de uma mulher doente a fez sentir-se tola e cruel, mas era exatamente assim que se sentia em meio  solido da noite.
Quando adolescente, ela fora segura de si, a ponto de enfrentar tudo e todos para ficar com Jean-Luc. Havia sido rejeitada e perdera sua autoconfiana. Sabia agora que levaria tempo para recuper-la, para acreditar irrestritamente que ele a amava.
No conseguiu encontrar o relgio de Sean. Procurou por alguns minutos, sem grande empenho, e ento desistiu e foi deitar-se.
Exausta, fechou os olhos esperando que o novo dia trouxesse Jean-Luc de volta.

CAPITULO X

Voc viu o estado das mesas do restaurante?  inquiriu Raquel rispi-damente.  E lamentvel. J lhe disse isso na hora do caf da manh e estou repetindo agora. Quero que providencie flores frescas e toalhas impecavelmente brancas.
Colin ouvia calado, achando que ela exagerava um pouco.
	E os garons? Pea para serem mais atenciosos com os hspedes. Os clientes gostam disso. Sentem-se privilegiados e, alm disso, merecem tudo de ns, levando em conta os preos que pagam. E o chefe de cozinha?
	O que tem ele?  perguntou Colin intimidado.
	Diga-lhe para caprichar mais na apresentao dos pratos. 
As pessoas comem com os olhos, se  que ele ainda no sabe.
Colin prometeu-lhe uma interveno rpida nos problemas, embora notasse que Raquel estava provavelmente irritada com problemas de ordem pessoal e descarregava a tenso na equipe do hotel.
Ela percebeu que a tenso e o cansao haviam chegado ao ponto de afetar seu comportamento normalmente cordato. S no pediu desculpas a Colin por uma questo de autoridade, mas, por outro lado, tinha certeza de que iriam melhorar os servios.
Era o quinto dia de ausncia de Jean-Luc, e aquele parecia pior que todos os outros. Raquel fazia aniversrio.
Faria vinte e cinco anos naquele dia, e ningum parecia saber ou importar-se. Era bobagem aborrecer-se com o assunto. Mas havia se levantado com a irreal esperana de receber um carto, um telefonema que fosse. Ocupou-se fazendo uma vistoria em todo o hotel.
O que Raquel esperava? Flores? Fitas? Bales? Um grande bolo? Ela suspirou profundamente e reconheceu que tinha sido injusta com sua equipe de funcionrios. Nem mesmo sabia se havia contado a Jean-Luc sua data de aniversrio, portanto no devia esperar receber algum presente dele.
No entanto, ainda tinha esperana.
Propositadamente, passou pelo balco da recepo, em que trs casais se registravam. Ajustou com as mos o vestido de seda verde que usava e fixou seu melhor sorriso na recepcionista, como se esperasse ser chamada. No havia pacote, nem um telegrama, nem mesmo um recado telefnico.
	No saia de seu posto sem deixar uma substituta  ralhou com a moa aps cham-la de lado.  Estou esperando uma mensagem importante e, de qualquer modo, sua presena aqui  essencial. Voc  a primeira pessoa que recebe os hspedes e precisa dar a melhor das impresses, entendido?
Raquel interrompeu a advertncia. Pensou ter visto, pelo canto dos olhos, a figura sempre imponente de Jean-Luc, e seu corao bateu mais forte. A no ser, ela pensou, que fosse uma alucinao provocada por sua dramtica ansiedade.
Jean-Luc acabara de entrar carregando uma mala e uma pasta executiva. Parecia mais atraente do que ela jamais podia lembrar-se.
	Isso  tudo, Carolyn  disse  recepcionista enquanto se afastava.  No se esquea do que eu disse.
Encontraram-se no meio do saguo, e Jean-Luc fixou nela seus olhos encantadores. Raquel sentiu um impulso poderoso de abra-lo e beij-lo, mas conseguiu conter-se e desfrutou, paralisada, a experincia maravilhosa de v-lo ali.
Fizera bem em ter f e esperana, pensou.
Vestido com cala clara de algodo, camisa plo branca que realava o bronzeado de sua pele, malha de l atirada casualmente sobre os ombros, Jean-Luc tinha uma aparncia bonita e insinuante.
O alvio de Raquel era palpvel. Ela sentiu o corpo relaxar-se gradualmente, e as preocupaes que haviam dominado seus dias afastarem-se de sua mente uma a uma. O medo do abandono, como no passado, reduziu-se  nota de aflio que no resistiria ao primeiro sorriso dele.
E foi o que aconteceu.
Jean-Luc caminhou lentamente at Raquel, sorrindo de modo aliciante, at ficar frente a frente e parar, colocando a bagagem no cho.
	Ol.  O sorriso dela foi tmido. Imaginava se ele estava a par de seu aniversrio e de sua inspeo irritada do hotel.
 Que bom que voltou!
	Sim, embora parecesse, por um momento, que eu estava entrando em um lugar estranho.  Seus olhos examinaram o rosto de Raquel.  Nunca a ouvi falar to rispidamente com um funcionrio. Ser que a recepcionista merecia isso?
	Eu...  Raquel vacilou na resposta.  Provavelmente no. Desculpe-me.
	No  a mim que voc deve desculpas  ele observou.
Ela relanceou o olhar pelo balco de recepo e viu a moa ocupada, respondendo ao telefone.
	Claro que no. Logo mais falarei com ela.
	Parece cansada, Raquel. Colin me disse que voc anda exagerando no trabalho.
	Colin?  Ela mal podia concentrar-se, com a mo de Jean-Luc acariciando-lhe o rosto.  Falou com ele?
	Agora h pouco. Liguei do aeroporto, para saber como estavam as coisas.
	Eu poderia t-lo informado, se me ligasse.  Raquel franziu a testa.
	Sobre o hotel, sim. Mas sobre voc...  O tom de voz era de censura.  Diria como sempre que est bem. S que a vejo exausta, quase estressada.
	Foi isso que Colin lhe contou?
	De certo modo, sim. Ele me  muito leal. E eu no gostaria de v-la to preocupada com coisas triviais.
	Triviais?  A irritao de novo insinuou-se na voz de Raquel.
	Deixe Colin lidar com o pessoal, seno teremos uma de bandada. No gostaria de perder funcionrios e, de qualquer modo, voc est acima deles.
	Voltou para me dizer isso? Para evitar demisses? Para proteger seu precioso investimento?
	Voltei por sua causa  ele afirmou com entonao segura e firme.  Nada mais.
	Bem  ela acalmou-se e passou a mo sobre a testa.  Achei que estava fazendo meu trabalho aqui. Prometo rever meus critrios.  Suspirou longamente.  Senti sua falta.
	Eu tambm tive saudade.  Jean-Luc manteve o olhar sobre ela.  Foram cinco longos dias.
	E como est Maria?  indagou Raquel com hesitao.
	Melhor.  A expresso dele denotava alvio.  Sofreu um transplante de fgado e, nos primeiros dias, houve ameaa de rejeio, mas agora a situao se estabilizou.
	Fico contente  disse Raquel, sorrindo, enquanto imaginava qual a aparncia de Maria e quais os sentimentos de Jean-Luc por ela.
	E Naomi?  ele perguntou.
	Reagindo bem.  Ela lembrou-se de que precisaria pedir a Jean-Luc um emprstimo.  Todos os rgos j funcionam bem, mas Naomi ainda no fala direito.
	Voc a viu hoje?
	No.
	Mais tarde poderemos ir juntos ao hospital.
	Est bem, desde que voc no tenha criado averso a hospitais. Que fase! Quanto a mim, tenho evitado visitas a Naomi porque os mdicos disseram que era melhor assim. Ela fica muito agitada quando me v.
	Realmente?  Ele a beijou levemente na boca.  Deve ser uma situao difcil para voc.
	De fato .  Os olhos de Raquel lacrimejaram. Precisava como nunca de um abrao apertado.
Ele apanhou a bagagem e encaminhou-se para o balco a fim de pegar a chave de seu quarto.
	Vou descansar um pouco e nos vemos mais tarde. Tudo . bem? No imagina a saudade que senti...
	Estarei esperando ansiosa  ela disse com os olhos brilhando.  No prefere ficar na minha casa?
	No.  bom eu ver de perto como funcionam as coisas aqui.
	Parece que no confia mais em mim como gerente do hotel.
	No  nada disso, Raquel. Voc sempre vai alm de minhas intenes. Deixe-me organizar alguns documentos e nos vemos s quatro horas, est bem?
	Mas, Jean-Luc...
	s quatro.  E desapareceu pela ala dos apartamentos.
	Jean-Luc dirigia um Mercedes esporte conversvel, que Raquel ainda no tinha visto. Estavam na estrada havia mais de quinze minutos.
	Aonde vamos?
	Logo voc ver.
Ela prendeu seus longos cabelos, evitando que o vento os embaraassem demasiadamente. No conseguia atinar com o que Jean-Luc planejava.
	Este carro  novo? Quantos voc tem, afinal?
	No  to novo assim. Dei frias a Emil, o motorista. E, para dirigir sozinho, prefiro um carro pequeno, esportivo.
Ao sorrir, ele mostrou uma fileira de dentes muito brancos, que contrastavam com o rosto bronzeado. Reduziu a marcha e estacionou em um estreita faixa de acostamento.
	Veja! Ali!  ele exclamou.
Ela seguiu a direo de seu brao. Colina abaixo, estendia-se uma vasta terra plana, recentemente arada, em que os sulcos na terra apenas quebravam a monotonia da grama verde e baixa.
	No vejo nada de especial  disse ela.
Ele manobrou o Mercedes at  beira de outro barranco, alguns metros adiante.
	Agora olhe!
Raquel acompanhou o olhar de Jean-Luc pelo largo campo deserto at divisar um estbulo, um caminho e, no meio do terreno, enormes bales coloridos de nilon atados a um cesto de vime. Levou um segundo para perceber do que se tratava.
	No!  verdade?  Raquel fitou Jean-Luc deliciada, com um largo sorriso de prazer.
	Feliz aniversrio!  Ele inclinou-se e beijou-a temamente.
	Como voc sabia? Eu lhe contei? E o balo? Sempre foi meu sonho.
Raquel no cabia em si de contentamento, emocionada ao ser surpreendida.
	Voc os mencionou uma vez.  Ele sorriu.  E tenho boa memria.
	Mas foi h mais de seis anos, quando um balo sobrevoou a granja! Parecia um pedao do cu que tinha se desprendido do firmamento.
Jean-Luc sorriu ante a imagem potica de Raquel e ligou o carro para descer a trilha logo adiante e chegar ao cenrio dos acontecimentos.
	Gostou de minha surpresa?  ele perguntou.
	Claro. E como!  Beijou-o em agradecimento.
Algumas pessoas haviam descido do caminho com tubos de gs e maaricos. Levou tempo para inflar o balo, mas Jean-Luc havia pensado em tudo. Pegou no porta-malas do carro uma caixa de isopor com duas taas e champanhe gelado. Abriu a garrafa sem tirar a vista dos olhos cintilantes de Raquel e serviu a bebida.
	O que mais amei foi o fato de voc ter pensado em mim  comentou ela.
 E o que acha que fiz nos dias em que estive fora?  ele perguntou, satisfeito com a alegria dela.
	Por que quis se hospedar no hotel?  ela indagou calmamente.  Podemos ficar juntos em casa.
	Est bem, mas no o tempo todo  disse Jean-Luc.
Aps um brinde, eles beberam a champanhe em goles curtos, sem pressa, enquanto ele comentava que aqueles dias de afastamento tinham servido para rever sua relao com Raquel.
	E a concluso foi de que no queria passar muito tempo comigo?  Ela acompanhou com a vista o preparo do balo e sentiu uma leve angstia. Tinha sido -tola em pensar que tudo seria maravilhoso com a volta de Jean-Luc.
	No.  Ele tomou-lhe a mo entre as suas.  No  nada disso, Raquel. Desta vez as coisas vo ser diferentes, prometo. Eu desejo voc, mas quero que comecemos nosso novo relacionamento de olhos abertos.
	Meus olhos esto abertos  ela afirmou, olhando-o ansiosa na face.  E s vejo voc.
	Como antes?  As sobrancelhas subiram enigmaticamente.  Sou uma pessoa diferente agora, graas a voc. Voc me transformou.
	O qu quer dizer?  Ela estreitou os olhos azuis.  No compreendo.
Jean-Luc pensou em falar-lhe da dor da rejeio que sentira antes de partir, seis anos antes, da devastao interior que sofrera. Mas aquele deveria ser um dia feliz, e ele desistiu de qualquer lembrana triste.
Conversaremos depois  disse, dando mais um beijo na boca de Raquel.
O piloto do balo os chamou para embarcar e, pouco depois, Raquel teve o corao sobressaltado pelo balano do cesto ao subir. Logo o balo ganhou altura e estabilidade, e ela pde contemplar a paisagem verde e ondulante da regio. Deu gri-tinhos de alegria quando o artefato sobrevoou a granja, mostrando-a de uma perspectiva indita. A propriedade parecia magnfica, e ela suspirou de orgulho. Ento, veio a preocupao.
	Como vamos voltar?  ela perguntou a Jean-Luc.
	Sem problemas. Olhe para baixo. No, nesta direo.  Ele virou-lhe o rosto at o ponto certo.  V o caminho na estrada? Est nos seguindo desde que subimos. Logo que o balo pousar, ele nos levar de volta ao carro.
	Ah, claro.  Raquel aproveitou para encostar-se nele com malcia.  E eu imaginava que teramos de caminhar um bocado!
Jean-Luc moveu as mos pelo corpo dela e beijou-lhe o pescoo.
	Nenhum barulho. Apenas o sol, o cu e a paisagem  ele comentou.  E uma maravilha!
	O que aconteceu com o patro sempre ocupado?  ela brincou.
	Bem, ele decretou feriado hoje. Pelo aniversrio da namorada.
	Ele precisava muito de uma folga, no acha?  Raquel posicionou-se de modo a beijar-lhe na nuca.  S que um passeio de balo no muda muita coisa.
	Que rapidez! J voltou a ser cnica?  ele queixou-se.
	Enciumada, eu diria. Maria  bonita?
	No agora, Raquel. No estrague um momento to bom. 
	S perguntei...
	 uma questo sem importncia.  Jean-Luc afastou uma mecha de cabelos que lhe cara na testa.  O que importa se ela  bonita ou no?
	S estava imaginando...
	Voc no tem com que se preocupar  disse Jean-Luc firmemente.
	Ela foi sua esposa.  um lao muito forte.  Raquel notou que ele no procurava mais negar-se a responder.  Pode imaginar o que tenho passado?
	E se eu lhe disser que ela  morena e bonita, com um sorriso maravilhoso?
	Ela  assim?
	Assim como?  Jean-Luc comeava a irritar-se.  Sim, Maria  tudo isso.
Surpresa, Raquel inspirou o ar profundamente.
	Ento por que separou-se? Ela  perfeita!
	Como um anjo.
	Voc disse que a magoou.  Raquel fixou o horizonte.
 O que fez?
	J so cinco anos. Por que voc me faz lembrar de coisas que no quero?  Ele arfou at normalizar a respirao.  Fui egosta, indigno do amor dela. No devia ter-me casado. Eu fiz com ela...  Fez uma pausa. Quase disse: "o mesmo que voc fez comigo". Conteve-se e percebeu a impropriedade daquela conversa nas alturas.  Chega, Raquel. Voc est estragando o dia.
	No consigo evitar.  Ela meneou a cabea.  Eu precisava saber.
Quase tinham se esquecido de que no estavam sozinhos. Sob uma corrente inesperada de ar, o balo perdeu altura e passou a centmetros da copa de uma rvore.
Raquel deu um grito de alarme quando o cesto balanou exagerada mente, e s reencontrou a serenidade nos braos de Jean-Luc. Parecia que o tempo estava mudando, e o piloto sugeriu que pousassem.
	Voc est bem?  perguntou Jean-Luc com solicitude.
Raquel o fitou com os olhos toldados de medo, liberando um suspiro.
	A aterrissagem faz parte da emoo?  ela disse, ensaiando um riso irnico.
	Uma emoo sem a qual no podemos passar  contestou ele.
	Desculpe-me, Jean-Luc. Sobre aquelas perguntas todas. No quero que me julgue tola.
	Ambos somos culpados de dizer e fazer coisas que no queremos  ele a acalmou em tom amistoso.  Faz parte da natureza humana.
	Ento, estou perdoada?  ela insistiu.
	Claro que est.
A expresso dele era uma hipntica mistura de ternura e paixo.
A viagem de volta foi feita em tempo recorde. Jean-Luc estacionou na frente da casa de Raquel.
 Vai dormir no hotel ou quer entrar um pouco?  ela perguntou.
O olhar lascivo no deixava dvidas quanto ao que Raquel queria. Homem experiente, Jean-Luc prenunciou uma maravilhosa noite de paixo, ainda mais que a separao de cincc dias havia aumentado o desejo deles.
Entraram e foram diretamente para o quarto. Fizeram amor diversas vezes, com intensidade e ternura, em momentos sublimes de intimidade. Jean-Luc sussurrava palavras em francs para Raquel, que ela no precisava entender literalmente para saber que se tratava de uma expresso de seu sentimento. Palavras de amor.
Eram quase quatro horas da manh quando Raquel ajeitou-se na cama e acomodou suas pernas sob os lenis na musculatura rgida do corpo de Jean-Luc, deitado a seu lado. Semi-adormecida, ela deixou o brao pender sobre o peito dele e aninhou-se.
Ele sentiu o toque no corpo tenso. Respirou profundamente, tentando relaxar e dormir, mas nenhuma mulher no mundo, como Raquel, era capaz de tirar-lhe o equilbrio.
Fez um lento movimento para levar as mos  nuca, e seus dedos vigorosos se fecharam ao tocarem um objeto que apanhou, na mesa-de-cabeceira. Apertou algo que se parecia com uma pulseira de metal. Era o relgio de Sean. Durante a briga, Jean-Luc tinha gravado a imagem daquela dispendiosa pea. E agora...
Aspirou o ar novamente, sem acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo com ele. O relgio de Sean no quarto de Raquel? Seu peito resfolegou de ansiedade, fazendo subir e descer o brao dela. Entendia perfeitamente a eventual fragilidade de seu relacionamento com Raquel, com tantos temores e segredos ainda por revelar. Teriam os dois ficado juntos?
A mo esquerda de Jean-Luc deslizou para o lado, tocando momentaneamente a intimidade de Raquel. O toque suave e ertico apenas o confundiu ainda mais. Tentou imaginar diversas possibilidades para justificar o relgio de Sean naquela mesinha, mas em sua insegurana s conseguiu pensar no pior.
Por quase uma hora, continuou deitado, meditando, seguindo com o olhar o nervoso movimento dos ponteiros no mostrador luminoso. Levantou-se com cuidado para no acordar Raquel. e foi at o banheiro, sempre segurando o relgio na mo. Sentia-se cansado e, no entanto, inteiramente desperto.
Colin havia mencionado as frequentes visitas de Sean ao hotel em sua ausncia, e a dvida pesou-lhe no corao, uma herana do tempo em que, seis anos atrs, ele precisara encarar o fato de que o envolvimento de Raquel no era to intenso e completo como ele desejava e supunha.
Voltou e ficou olhando para ela. Com mais um movimento sobre a cama, o lenol a descobrira. Jean-Luc sentiu uma pontada de desejo. Raquel era adorvel em sua nudez. Como um homem poderia resistir? Como Sean resistiria?
Sean deveria ter-se aproveitado da doena de Naomi para aproximar-se de Raquel, tanto ou mais do que se aproximara antes. A imagem dos dois juntos, nos cinco dias em que estivera fora, atormentava Jean-Luc. Ele comunicara-se pouco com ela, e omitira suas emoes. Mas isso por si s no explicava por que Raquel, ao telefone, s falara de assuntos do hotel e outras banalidades.
Ela moveu o corpo de novo e estendeu os braos tentando-o a sentar-se na cama. Completou sua demonstrao de afeto beijando-lhe o peito nu e depois o rosto. Jean-Luc aceitou calado a atrao de sua beleza loira, mas estava tenso, cheio de dvidas. Ansiava por beijar aquela pele sedosa, sentir a maciez e o calor de seu corpo.
	No conseguiu dormir?  ela perguntou, sem receber resposta.  Devia ter-me chamado, e eu lhe faria companhia.
Era quase madrugada, e ele a olhou de forma estranha. Plido, Jean-Luc no parecia bem. Ela se reclinou na cama para v-lo melhor. Estaria doente?
	O que aconteceu?  Raquel piscou forte e afagou o rosto dele.
	Voc se encontrou com Sean enquanto eu estive fora?  ele criou nimo para perguntar.
	Sean?  Ela franziu a testa, sem compreender o motivo da pergunta.
	E o que eu disse. Ele esteve aqui?  A respirao ofegante de Jean-Luc era visvel em seu peito.
	O que voc quer que...
	Apenas responda a minha pergunta.
 Ele a viu encolher-se diante da rispidez de sua voz e rezou para que sua capacidade de julgamento no estivesse abafada pelo cime.
	Fiz apenas uma pergunta  ele insistiu.  Ele esteve aqui?
Raquel fez meno de acariciar-lhe de novo o rosto e estendeu a mo. Jean-Luc colheu-a com fora  altura do pulso e por pouco no a torceu.
	Por favor, no seja assim comigo!  ela implorou.
	Esteve ou no esteve?  ele quase gritou.
	No!
	 mentira!  Conseguiu abaixar o tom de voz e soltar a mo de Raquel.  Por que voc mente para mim?
	Est certo, Sean veio aqui, mas...
	Vocs dormiram juntos?
A pergunta era to melanclica que ela no se dignou a negar, por mais que o olhar furioso de Jean-Luc implorasse uma resposta. Em vez de ofendida, Raquel ficou triste.
	O que est acontecendo?  ela indagou, como se no acreditasse na situao.  Como pode pensar que...
	Encontrei um relgio. Sei que  dele.
	Onde o achou?  Pelo menos agora a conversa ganhava certa lgica, e isso a deixou mais calma.
	Na mesinha, ao lado da cama.
	Impossvel! Quero dizer, Sean nunca veio at meu quarto.
	Gostaria de acreditar.
	Gostaria?  Raquel respirou fundo e ajeitou os cabelos com os dedos trmulos.  Quantas horas ficou pensando nisso? No posso acreditar que estejamos tendo esta conversa  ela explodiu , depois de tudo que tivemos juntos!
	Juntos?  ele ironizou.  Com um intervalo de seis anos?
Como se de repente casse em si, Raquel mordeu o lbio para evitar o choro.
	Voc no confia em mim!  ela o acusou, j com os olhos marejados.
	Sean veio visit-la vrias vezes, e voc no me contou.
	No achei importante contar.
	Mas importa bastante, Raquel, agora que encontrei o relgio dele praticamente em sua cama. Em nossa cama...
	No precisa repetir isso. J disse que no tenho ideia...
	Voc no tem ideia do que passei nesses ltimos seis anos. Absolutamente nenhuma ideia.
	Voc se casou  retrucou ela em um sussurro.
	Sim, eu me casei.  A expresso dele era sombria.  E terminou. Acabou antes de comear!
	Mas voc deve t-la amado muito.
	Por qu?  Dirigiu a ela um olhar carregado.  Porque trocamos alianas, e ela ficava bem em um vestido de noiva?
	Ficava bem?  Raquel no pde resistir.
	Como uma princesa!  Os olhos de Jean-Luc brilharam.
	Talvez agora eu o entenda melhor  observou Raquel.
	No, no entende. Acho que foi um engano eu voltar. Pensei que poderia enfrentar as inevitveis recriminaes e frustraes de sua parte, mas no est sendo fcil. Para nenhum de ns.
	O que quer dizer com isso?
	Voc sabe, Raquel. Eu a desejo muito, mas ns dois no conseguimos esquecer o passado.  uma sombra em nossas vidas.  Jean-Luc contraiu o queixo, revelando sua decepo e desgosto.  Sean esteve aqui, neste quarto. Para que negar?
	Para qu, realmente?  Raquel fez um grande esforo para falar, pois a emoo quase lhe tirava a voz.  Voc tem razo. No podemos continuar assim.
Uma expresso fria, metlica, cobriu-lhe a face, e ela prosseguiu:
	Atrao e desejo no bastam, no  verdade? No quando falta confiana. Vamos terminar tudo, Jean-Luc. Voc me deixa to...
Ele ficou em suspenso, esperando a concluso da frase.
	To assustada! Melhor terminar antes que nos magoemos.
Jean-Luc comeou a vestir-se e olhou para Raquel. Atirou o relgio prateado sobre a cama.
	Aqui est.  caro. Melhor devolver para Sean.
	Por favor, de novo lhe peo para no me torturar com essa histria.
	Foi voc que me transformou no que sou. Pensei que o passado poderia ser esquecido, at imaginei ser feliz a seu lado, mas foi tolice de minha parte.
Pondo o orgulho de lado, ela fez a pergunta que estava presa em sua garganta.
Voc me ama?
A expresso de Jean-Luc mudou, no para melhor.
	E se eu amar? Isso altera alguma coisa?  Ele curvou a boca em um sorriso amargo.   uma pergunta tola.  Olhou-a com tristeza enquanto abotoava a camisa.  Vou deixar a granja. No se preocupe com os negcios. Continuaro da mesma forma.
	Por que voc voltou, afinal? S para me fazer sofrer de novo?
	Eu teria muito a falar, Raquel, mas digamos apenas que foi um engano.
	Ento v, Jean-Luc. Deixe-me em paz.  Raquel estava exasperada, impaciente para v-lo sair.  E pensar que voc estragou tudo com uma dvida idiota a respeito de Sean. V e nunca mais volte aqui!

CAPITULO XI

Jean-Luc deu partida em seu carro e acelerou mais do que recomendava a prudncia. O dia estava nascendo e uma nesga de sol se tornava visvel no horizonte. Uma breve parada no entroncamento com a rodovia principal, e ele continuou dirigindo o Mercedes, olhos postos em um ponto indefinido a sua frente.
Ele no fazia ideia para onde ir. A estrada, pensou, o levaria ao litoral, um lugar to bom quanto qualquer outro. A pista estreita e os rochedos escarpados, caindo a sua esquerda, o obrigaram a diminuir a velocidade.
Uma hora depois, ele estacionou em um ponto coberto de grama. Ali permaneceu, contemplando o mar. Sentiu frio sob a brisa marinha. Mais forte, porm, era o sentimento de solido, de infelicidade. Tentou no pensar em Raquel. No daria certo. Por que simplesmente no admitia isso? Bem longe a sua frente, depois do canal da Mancha, estava a Frana, seu lar. Como poderia dar certo, com o cime roendo-lhe a alma, e Raquel desprovida de calor e compreenso?
Jean-Luc no sabia o que fazer. Apenas havia partido, como ela pedira. E agora? Voltaria para a Frana? Conseguiria esquec-la para sempre, desta vez?
Achei que a encontraria aqui.
Raquel olhou para cima. Estava agachada no pequeno jardim, observando silenciosamente alguns botes de flores. Esforava-se para deixar a mente vagar, afastando os sentimentos de comiserao que lhe rondavam o corao.
	Ol  saudou sem maior expresso o visitante inesperado.
	Aconteceu alguma coisa?  Sean ajoelhou-se ao lado dela e coou o queixo com a mo.  Voc esteve chorando, Raquel?
Ela enxugou mais uma vez o rosto mido com as costas da mo.
	De vez em quando eu choro  ela explicou, esboando um sorriso.
	 Jean-Luc, no ? Vi o carro dele na estrada. Quase voando.  Ela adotou uma expresso preocupada.  Mas por que importar-se, se ele a tratou to mal?
	Como voc sabe?
	Bem, eu sei.
Raquel meneou a cabea, mordiscando o lbio.
	Fui uma idiota! Eu devia saber que nosso passado nos impediria de viver bem e no deveria ter esperana alguma.
	Gostaria de poder ajudar...  Sean assumiu uma expresso de simpatia, enquanto tomava as mos de Raquel e levantava-se junto com ela.  Vamos dar uma volta.
	No, no quero andar.
	S at o pomar. A tarde est linda, e o exerccio vai-lhe fazer bem. Quero lhe contar uma coisa.
Com isso, Sean venceu a resistncia de Raquel, e saram andando, lado a lado.
	Acho que voc j pode visitar Naomi de novo.
	Mas ela no queria me ver. Achei que seria melhor para ela se eu no aparecesse no hospital.
	Eu sei, mas ainda penso que voc deve ir.
	Por qu?  Ela franziu a testa, intrigada.  Naomi piorou?
	No, ela est melhorando. Os mdicos esto otimistas.
Naomi est falando melhor. J  possvel entender alguma coisa do que ela diz.  Ele fez uma pausa.  Esteve falando sobre voc.
	Sobre mim?  Raquel emocionou-se.  E o que ela falou?
	Bem, pouco se entende do que ela fala. Decifrei seu nome e o de tia Clara. Quem sabe voc consiga entend-la melhor. S ser preciso avisar antes. Os mdicos estabeleceram esta regra porque Naomi fica muito agitada com a dificuldade de comunicar-se. H uma fonoaudiloga fazendo exerccios com ela.
	E?  Tinham chegado ao fim do pomar e fizeram meia-volta.
	Naomi j aponta as letras em um quadro, e com isso consegui escrever a mensagem que ela queria transmitir.  Sean procurou um papel dobrado nos bolsos e passou-o para Raquel.  Aqui est. No  muita coisa, e nem sei se tem alguma importncia.
Raquel desdobrou o papel, na verdade uma folha rasgada de um caderno, e leu em voz alta.
	"Muito jovens. Clara e eu. Papai doente."  Seria uma cena do passado?  Ela olhou para Sean interrogativamente.
	 pouco, eu sei  ele disse.  E quase no se entende o que ela quer. Mas Naomi ficou mais calma depois de conseguir montar esta mensagem.
- Acha que isso tem alguma coisa a ver comigo?  Ela olhou de novo para o papel.  Parecem lembranas da infncia. Tia Clara e Naomi moraram juntas desde pequenas.
	Francamente, no sei do que se trata. A fonoaudiloga me disse que ela fica repetindo o nome dela, como se quisesse fixar o som. Esquea.  Recolheu o papel e jogou-o na grama depois de amass-lo.
	Agora, conte-me o que a est aborrecendo tanto  pediu Sean durante a caminhada de volta.  O que ele fez para voc dessa vez? Desculpe-me, mas nunca confiei naquele canalha.
	Voc ainda no esqueceu nem perdoou o soco que ele lhe deu, no ?  A recordao da cena a deixou infeliz.  No quero falar a esse respeito, Sean. E no h nada que voc possa fazer.
	Voc  boa demais para ele.  Sean segurou Raquel pelos ombros, olhando-a de frente com insistncia.  Acredite-me. Boa demais!
	Por favor, Sean.  Ela se livrou das mos dele.  Sei que voc quer meu bem, mas esse tipo de conversa no ajuda em nada. Para ser honesta, prefiro ficar sozinha  ela acrescentou angustiada.  Deixe-me comigo mesma, est bem?
Sean no parecia disposto a atend-la. 
Jean-Luc recolheu as poucas peas de roupa que havia usado e atirou-as para dentro da mala aberta sobre a cama. Passara o dia em um hotel no alto da colina, de onde se tinha uma boa viso da granja. No saberia dizer se a escolha fora proposital, mesmo porque estava magoado demais para conseguir pensar.
Foi at a janela e apreciou a paisagem crepuscular. Podia-se ver dali a antiga casa de hspedes, o que significava que, cedo ou tarde, teria a viso longnqua mas dolorosa de Raquel.
Girou o corpo para afastar-se da janela, mas voltou quase imediatamente quando o movimento de dois corpos lhe atraiu a ateno. Raquel e Sean passeavam juntos pelo pomar. J? No era cedo demais?
Talvez no. Jean-Luc concentrou-se na linguagem corporal de Raquel. Observou que, em um gesto brusco, ela se livrava das mos de Sean que tentavam segur-la pelos ombros.
Mais tarde, Raquel estranhou que nenhum deles havia dado pela chegada de Jean-Luc  granja.
Sean colocou-se a sua frente, impedindo-a de prosseguir andando, e estendeu os braos para ela com uma disposio que a surpreendeu. Os olhos dele pareciam exigir-lhe a aceitao de seus intuitos. Foi quando Jean-Luc empurrou Sean rudemente contra uma rvore e, agarrando-o pelo colarinho, bateu diversas vezes as costas dele contra o duro tronco.
	J lhe disse para deixar Raquel em paz!  ele gritou.
 Pensou que eu estivesse brincando?
Como que tomando impulso na rvore, Sean saltou violentamente sobre Jean-Luc.
	Jean-Luc, por favor. Sean, no!  Com a sensibilidade aguada pelos ltimos acontecimentos, Raquel no podia suportar a cena.
A briga continuou. Sean parecia ter aprendido algo desde a ltima altercao com Jean-Luc, e desviava-se bem dos socos dele. Mas no possua agilidade nem fora e comeou a se enfraquecer. Maldizendo o adversrio, deu dois murros na direo dele, mas Jean-Luc conseguiu segurar-lhe os pulsos com inaudita presso e, ao torc-los sem piedade, deixou Sean no cho.
Raquel imediatamente agachou-se ao lado de Sean, segurando um leno contra o nariz que sangrava. Ele arfava, sentindo dor e, principalmente, a humilhao da derrota. Ela virou a cabea e olhou com dio para Jean-Luc, que ainda mantinha os punhos em riste a um metro dali.
	Animal!  gritou Raquel.  Quem lhe deu permisso para entrar aqui e fazer isso? Ele s estava conversando comigo!
Os olhos de Jean-Luc tornaram-se sombrios ante a dureza daquelas palavras. Ela notou que ele ofegava e que tinha uma esfoladura na face esquerda, onde Sean o acertara no comeo da briga.
	No parecia uma conversa inocente  disse Jean-Luc  maneira de justificativa para seus atos.
	Andou nos espionando?  o fim!  Raquel balanou a cabea.
	Espionando? Foi simples coincidncia.  Os lbios se apertaram.  Ele estava pondo as mos em voc.
	E da? E se estivesse? Voc no tem mais nada a ver com isso, desde a nossa ltima conversa.
Talvez uma parte de Raquel estivesse agradecida pela preocupao de Jean-Luc com sua honra e bem-estar, mas ela podia perfeitamente lidar com Sean, que no era uma pessoa hostil.
Jean-Luc manteve-se calado.
	Somos amigos h muito tempo  ela prosseguiu, com os frios olhos azuis fixos no rosto de Jean-Luc.  Ele se preocupa comigo. E o que fez pensar que eu queria sua interferncia? No quero!  A raiva dela crescia ao ritmo das palavras.  Nunca mais!
	Pensei que precisava de mim. Parece que me enganei de novo.  A voz estava carregada de emoo.  Perdo.  Desviou a ateno para Sean, e os dois homens se entreolharam.  Desculpe-me tambm, se puder. Acho que estou predestinado a grandes enganos.
	Talvez esteja mesmo  ela completou rispidamente.  Nunca imaginei que as coisas terminassem assim.
	Isso inclui nosso ltimo encontro?  ele perguntou com um fio de esperana.
	Ultimo encontro?  Raquel tentou ordenar as emoes que a envolviam e fez um esforo para manter o bom senso.
 Do que est falando?
	Perdeu a memria, Raquel? Voc simplesmente me mandou embora.
Testemunha silenciosa do dilogo entre os dois, Sean estava sentado no cho, segurando fortemente o leno contra o nariz. A pea de tecido era agora uma s mancha de sangue. Ele estendeu o brao para chamar ateno.
O relgio...
	Cale-se, Sean.  Jean-Luc apontou-lhe o dedo em riste, ameaador.
	Preciso falar. O relgio, Raquel, eu o coloquei em seu quarto. De propsito para intrigar vocs dois. Perdoe-me.
	Est vendo?  Raquel olhou triunfante para Jean-Luc. 	Posso at perdoar a atitude de Sean, mas no sua desconfiana de mim.
	Desconfiana? Vivi anos sob a desconfiana de tia Clara e Naomi. E voc nada fez para enfrent-las.
	J lhe disse que elas eram minha famlia. Naomi veio trabalhar aqui com dezenove anos. Cuidou de tia Clara e de mim. Eu era jovem demais para ficar contra elas.
	Ento eram trs contra mim  observou Jean-Luc amargamente.  O passado nos atormenta, Raquel. E aqui est uma prova.
Ele passou-lhe a folha de papel que recolhera do cho e lera.
	No  verdade?  ele inquiriu.
	Isso  apenas uma mensagem de Naomi.
	Parece que ela tambm  obcecada pelo nosso passado. 
	Nosso passado?  Raquel releu as palavras.  No  sobre ns, e sim sobre Naomi e tia Clara quando eram jovens.
	E esta parte?  Jean-Luc apontou para o papel, lendo em voz alta.  Papai doente. No lhe diz nada?
	No!  Raquel exprimia seu espanto no olhar esgazeado que dirigia a ele.  Deveria dizer?
	Voc tem memria curta, Raquel.  Sua voz era cida. 	Mas vamos esquecer tudo.
Ele caminhou alguns metros at depois da rvore, passando por Sean, antes de Raquel decidir segui-lo.
	Eu realmente no sei, Jean-Luc, e no quero ficar nessa agonia. Por que no me explica tudo, em vez de bancar o arredio?
Um espasmo de inesperado humor curvou-lhe a boca.
	Arredio?  ele ecoou.
	Sabe o que quero dizer  ela replicou com irritao.  Pare de me olhar desse modo to crtico e conte-me tudo.
	Preciso lhe contar novamente que meu pai ficou doente? 	Ele a encarou para medir-lhe a reao.
	Seu pai?  Raquel ainda no entendera a importncia da informao.  Quando?
	Parece que sua memria de fato se apagou. Efeito da culpa, talvez?
	Culpa?  Ela se sentia cada vez mais enredada na retrica de Jean-Luc.  Por que eu me sentiria culpa?
	Acho que nosso relacionamento, na poca, significava pouco para voc.
Nervoso, ele recomeou a dar grandes passadas pelo terreno, exigindo de Raquel algum esforo para acompanh-lo. A voz de Sean fez-se ouvir, com conselhos para ela entrar para a segurana de sua casa e deixar Jean-Luc sozinho, mas ela os ignorou.
Quando ele finalmente parou e olhou, suas feies estavam alteradas por uma profunda mgoa.
	Quando eu a deixei e voltei para a Frana, no tinha ideia de como a situao era grave. Tive de ficar em casa, e o tempo foi passando. Mas eu acreditava que nosso amor resistiria a tudo, que realmente havia uma ligao muito forte entre ns.
	Ento, voc me abandonou para cuidar de seu pai doente?
	Claro  ele a fitou com um ar interrogativo.
	No.  Ela balanou a cabea.  No faz sentido. Voc me deixou um bilhete, dizendo que no queria mais me ver.
Que tinha gostado muito de mim, mas que existia um mundo inteiro esperando por voc.
	Voc acredita que eu possa ter escrito um bilhete para voc nesses termos?
	Voc escreveu um bilhete ou no?  O conflito de emoes chegava ao impasse total.
	Escrevi. Mas para falar da doena de meu pai e que no sabia quando voltaria.  Os olhos dele se estreitaram.  Est me dizendo que nunca recebeu minha carta?
Ela meneou a cabea negativamente. Por fim Raquel estava ouvindo uma notcia maravilhosa.
	Nunca quis me deixar?  perguntou com a voz trmula.  E voltou aqui?
	Tentei telefonar, mas voc nunca estava. E quando tam bm no respondeu as minhas cartas...
	Lembra-se de que eu estava visitando uma amiga quando voc partiu? Ao chegar e ler seu bilhete, fiquei chocada. Mais tarde, tentei localiz-lo, sem sucesso.
	Escrevi dando o endereo de minha famlia em Paris ele explicou com pressa.
	Mas  nunca recebi carta  alguma!   Raquel quase gritou.  Ento tia Clara me mandou para uma viagem aos Estados Unidos...
	Tia Clara. A est. Ela e Naomi interceptaram minhas cartas e forjaram o tal bilhete que nunca escrevi. Percebe agora? Elas foram cruis e mentirosas. Manipularam nossas vidas a seu bel-prazer.
	Nunca! No  possvel! Ambas eram to carinhosas comigo.  Raquel tinha dificuldade em admitir os fatos, mas sabia que no fundo Jean-Luc tinha razo.  Eu passei meses to infeliz, to abatida...
	Nunca  tarde para perdoar erros.  A voz quente e profunda dele pareceu envolv-la em um manto protetor.
	No h nada para perdoar, querido  ela disse com suavidade.  Ns nos amamos, e  isso o que importa.
	Ma chrie  ele disse em francs antes de procurar a boca de Raquel para um beijo terno e ao mesmo tempo sensual.
O abrao carinhoso que os uniu exprimiu melhor do que qualquer palavra quanto ela significava para ele. E foi a vez de Raquel beij-lo.
	Temos o resto da vida para nos amar  ela murmurou.
	O resto da vida, sim.  Ele beijava obsessivamente cada centmetro de seu rosto.  Alis, preciso lhe pedir uma coisa.
	Pedir-me o qu?  Ela o apertava contra si como se nunca mais o quisesse longe.
	Para casar-se comigo.  Ele no esperou a resposta para beij-la ardorosamente.  Fomos feitos um para o outro.
	Ser sua esposa soa bem.  O sorriso de Raquel era caloroso e envolvente.  Voc  meu companheiro perfeito.
Para toda a eternidade.

EPLOGO

Raquel avanava pelo pomar em passos cuidadosos, atravs da trilha de grama recentemente aparada. As folhas estavam mudando de cor. Manchas de dourado e ocre se misturavam s ltimas nesgas de verde que se distinguiam das rvores. Havia chegado o outono.
Seu vestido marfim, longo e justo, tinha o corpete incrustado de pequenos botes de prolas. Nos cabelos havia margaridas, e nas mos, um buque de rosas brancas.
Aquela era uma caminhada muito especial at a velha e pequena capela revestida de pedras. Raquel quisera que seu casamento fosse assim, e Jean-Luc no se opusera. Uma maneira adequada de virar uma pgina" de sua vida e comear outra nova.
Ela andava devagar, concentrada na paz daquele momento ao entardecer. Jean-Luc a esperava na porta da capela. Dentro, estavam poucos convidados, inclusive Maria j recuperada, bonita como Raquel havia imaginado, e Naomi em cadeira de rodas, sorrindo feliz agora que o peso da culpa parecia ter sido removido de seus ombros.
Raquel mal podia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Teve plena certeza quando Jean-Luc, impecvel como sempre em um terno escuro, recebeu-a com um sorriso e to-mou-lhe as mos.
	Eu a amo  ele sussurrou, fitando-a no fundo dos olhos.
	Tambm o amo  ela disse suavemente.
Jean-Luc a beijou com infinita ternura.	
	Obrigado  falou de modo que s ela ouvisse.        
	Por qu?  O rosto dela iluminou-se.
	Por esperar, por ser to paciente comigo.
	Quase no conseguimos.
	Eu sei. Se perdesse voc de novo, no imagino o que faria de minha vida.
	Shh!  Raquel colocou um dedo sobre os lbios de Jean-Luc.  Nosso amor  muito forte. E duradouro.
Ela relanceou o olhar para dentro, e viu o padre no plpito, esperando.
	Todos prontos?
	Sim.
	Mesmo Naomi?
	Ela tambm.
Feliz, Raquel o beijou rapidamente na boca.
	Voc foi muito generoso, concordando em pagar o tratamento dela. Amo-o por isso. E por tudo o mais, naturalmente.
	Est autorizada a me dizer isso de vez em quando...
	Vamos entrar?  ela props.
Sem responder, ele deu o brao a Raquel e conduziu-a pelo estreito corredor da capela. A celebrao foi simples, mas comovente. Todos estavam convencidos do amor que os unia.
Depois da cerimnia, eles correram at a limusine que os esperava, enfeitada com fitas e festes. Emil, o motorista, abriu-lhes a porta, todo sorridente.
	Para onde vamos, sra. Manoire?  inquiriu Jean-Luc em um tom provocativo.
Raquel jogou seu buque de rosas para o ar e respondeu em meio a um riso contagiante.
	Qualquer lugar, desde que seja com voc.

FIM

